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25 DE JULHO DE 1943: O DIA EM QUE O FASCISMO
COMEÇOU A RUÍR NA ITÁLIA (Segunda Parte)
Depois de setembro daquele ano, até 1945, o inferno estaria
a dois metros de profundidade no território do centro-norte
da Itália
Mentore Conti – MTB 0080415/SP foto domínio publício
O fim definitivo do fascismo
A guerra civil italiana
prolongou-se até
abril de 1945. Com
o avanço das tropas
aliadas e da
resistência, a
República de Saló
entrou em colapso.
Mussolini tentou
fugir em direção à
fronteira suíça, mas foi capturado por partigiani e executado
em 28 de abril de 1945. Poucos dias depois, a Alemanha
Nazista rendia-se, encerrando a Segunda Guerra Mundial na
Europa.
A queda do fascismo marcou o início da reconstrução
política da Itália, culminando no referendo de 1946, quando
os italianos decidiram abolir a monarquia e instituir a
República Italiana.
Memória e liberdade
Recordar a queda do fascismo não significa apenas revisitar
um acontecimento histórico. É também homenagear aqueles
que sofreram perseguições, enfrentaram os campos de
prisioneiros e resistiram às imposições de um regime
autoritário
A história de Francesco Conti, como a de centenas de
milhares de Internados Militares Italianos, demonstra que a
defesa da liberdade nem sempre ocorreu apenas nos
campos de batalha. Muitas vezes ela manifestou-se na
recusa em colaborar com a opressão, mesmo quando essa
decisão significava anos de prisão, trabalho forçado e
incerteza sobre o próprio destino.
Mais de oito décadas depois, a memória desses homens
permanece como um testemunho de coragem e de
compromisso com valores que continuam fundamentais para
qualquer sociedade democrática.
Depois da destituição e prisão de Benito Mussolini em 25 de
julho de 1943, o armistício com os Aliados foi assinado em 3
de setembro de 1943 e anunciado publicamente em 8 de
setembro de 1943; em 9 de setembro, o rei e o governo
deixaram Roma e os Aliados iniciaram o desembarque em
Salerno, consolidando a nova fase da guerra na Itália.
A guerra que atingiu também os civis.
A guerra civil italiana não atingiu apenas os combatentes. À
medida que os confrontos entre as forças alemãs, os
militares da República Social Italiana e os grupos partigiani
se intensificavam, inúmeras cidades do interior passaram a
conviver com represálias, massacres e execuções sumárias.
Entre os episódios que marcaram esse período está a
tragédia ocorrida na localidade de Collatea, uma das frações
do município de Morro Reatino - Rieti, na região do Lácio.
Durante uma ação das forças de ocupação alemãs —
composta por paraquedistas alemães apoiados por
milicianos da República Social Italiana — a moradora
Sabatina Rossi foi assassinada. No mesmo ataque, os
soldados invadiram a
residência da idosa Angela
Molinari, que, por estar
acamada e sem condições
de levantar-se durante o
saque promovido pelos
militares, foi executada de
forma brutal em sua própria
cama. Sabatina Rossi tinha
problemas mentais e
quando a patrulha alemã
invade sua casa, ela
assustada gritou, e foi
fuzilada ali no ato. O
episódio tornou-se um dos
muitos exemplos da
violência que atingiu
populações civis durante a ocupação nazifascista da Itália.
A escolha de Francesco Conti.
Entre os milhares de militares italianos capturados após o
armistício estava Francesco Conti, tio do autor deste artigo.
Como tantos outros soldados, como escrevi acima, recebeu
a oportunidade de aderir à República Social Italiana e voltar
a lutar ao lado da Alemanha Nazista. Recusou-se.
A decisão custou-lhe a liberdade. Classificado como
Internado Militar Italiano (IMI), foi deportado para a
Alemanha, passando por campos de prisioneiros na região
de Düsseldorf, instalações ligadas ao complexo de Birkenau,
onde enfrentou as duras condições impostas pelo regime
nazista.
Com o colapso da Alemanha, e os bombardeios constantes,
Francesco Conti conseguiu fugir do campo de prisioneiros.
Sem meios de transporte e enfrentando uma Europa
devastada pela guerra, iniciou uma longa e difícil jornada de
retorno, percorrendo grande parte do caminho a pé, até
conseguir regressar à Itália.
Anos depois, já na década de 1980,
entre 1985 e 1989, tive o privilégio de
conhecê-lo pessoalmente. Em
conversas que permanecem vivas
em minha memória, Francesco Conti
relatou os sofrimentos do cativeiro, a
fuga, a longa caminhada de volta ao
seu país e diversos episódios vividos
durante a guerra.
Seus relatos não eram marcados
pelo ódio, mas pela lembrança de um
período em que milhões de pessoas
tiveram suas vidas transformadas
pela violência, pela intolerância e
pelos efeitos devastadores do
conflito.
Essas histórias, mais do que números ou datas, revelam que
a queda do fascismo e o fim da guerra representam também
a história de homens e mulheres comuns que resistiram às
imposições do totalitarismo e pagaram um alto preço para
que as futuras gerações pudessem viver em liberdade.
Hoje é fácil estar diante de um teclado de computador e se
declarar antifascista. Na realidade, os antifascistas de hoje
esquecem aqueles soldados e a população civil, que mesmo
tendo vivido e tendo sido doutrinados nas escolas do
fascismo até 1942, colocaram a partir de setembro de 1943,
a própria vida em risco, enfrentaram o regime fascista e o
nazismo, não aderindo a República de Saló quando isso
significava prisão, tortura ou morte.
Como escrevi antes, 650.000 de militares italianos, se
recusaram jurar fidelidade à República de Saló e foram
levados a Campos de Concentração na Alemanha, além dos
partigiani (240 mil e mais de 300 mil) que resistiram à
ocupação nazifascista e a população civil que sofreu
perseguições e massacres.
No Brasil, os verdadeiros
antifascistas foram os
pracinhas da Força
Expedicionária Brasileira
(FEB), que combateram em
solo italiano contra o Exército
Alemão e contra as forças da
República Social Italiana de
Saló, contribuindo para a
libertação da Itália e para a
derrota definitiva do
nazifascismo na Europa.
Por ironia, muitos dos que hoje
se apresentam como
antifascistas utilizam métodos
de propaganda e de persuasão semelhantes aos
empregados por Benito Mussolini, reproduzindo práticas
inspiradas no Estado Novo de Getúlio Vargas. Não se pode
esquecer que o Estado Novo foi profundamente influenciado
pelo fascismo italiano, tendo em Francisco Campos um de
seus principais formuladores jurídicos e ideológicos. Essa
influência manifestou-se na organização do Estado, na
propaganda oficial e em diversos instrumentos legais
adotados pelo regime de Vargas.
Aqui eu reforço mais uma vez: A memória dos soldados
italianos que recusaram servir à República de Saló, dos
partigiani, dos pracinhas brasileiros da FEB e todos os
combatentes aliados que enfrentaram o nazifascismo nos
campos de batalha, merece ser preservada com respeito.
Foram eles, e não aqueles que apenas fazem discursos
décadas depois, que arriscaram a própria vida para derrotar
um dos regimes mais violentos do século XX.
LA STORIA
Mentore Conti é Professor de História e
advogado também
(continue lendo após o anúncio)
Soldados da FEB na
Itália