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A DIREITA ANTES E DEPOIS DE 1989: DA GUERRA FRIA AO CAUDILHISMO LATINO-AMERICANO (PARTE2) Mentore Conti – Mtb 0080415/SP fotos Dominio Publico Jaboticabal 17 de agosto de 2026 É importante observar que o populismo também não pertence exclusivamente à direita. A história latino-americana apresenta experiências populistas associadas a diferentes posições ideológicas. O que frequentemente aproxima essas experiências é a construção de uma relação direta entre o líder e aquilo que ele apresenta como "o povo", muitas vezes em oposição às elites tradicionais, aos partidos ou às instituições intermediárias. Depois de 1989, esse fenômeno adquiriu novas características. O fim da Guerra Fria retirou do centro do debate a antiga oposição entre capitalismo e comunismo. Em seu lugar apareceram questões como globalização, neoliberalismo, desigualdade, criminalidade, segurança pública, corrupção, imigração, costumes, soberania nacional e crise de representação. Em algumas experiências políticas contemporâneas de direita, essas questões passaram a ser articuladas em torno de lideranças fortemente personalizadas. O líder apresenta-se como alguém que fala diretamente ao cidadão comum, enfrenta as elites políticas tradicionais e promete romper com aquilo que identifica como um sistema incapaz de resolver os problemas da sociedade. É nesse ponto que a expressão "novo caudilho" pode aparecer como uma metáfora política ou como categoria analítica utilizada por alguns estudiosos. Mas a comparação precisa ser feita com cautela. O líder do século XXI vive em uma sociedade de massas, disputa eleições nacionais, utiliza televisão, internet e redes sociais e atua dentro de Estados muito mais estruturados que os existentes no século XIX. O caudilho clássico dependia da força militar, do controle territorial, da propriedade rural e de redes locais de patronagem. O líder contemporâneo pode depender muito mais da capacidade de comunicação, da mobilização eleitoral e da construção de uma narrativa política capaz de alcançar milhões de pessoas. O cavalo foi substituído pelo automóvel. O discurso na praça foi substituído pelo rádio, pela televisão e pelas redes sociais. Mas, em determinadas situações, a lógica do personalismo pode permanecer. A comparação, portanto, não significa afirmar que o líder contemporâneo seja simplesmente um caudilho do século XIX. O que pode sobreviver é uma determinada cultura política na qual a solução dos problemas nacionais é depositada na autoridade excepcional de uma pessoa. Essa diferença é fundamental. No caudilhismo clássico, a fragilidade do Estado era uma das condições que permitiam ao chefe regional transformar sua autoridade pessoal em poder político. No mundo contemporâneo, o líder pode chegar ao poder justamente através das instituições do Estado e, posteriormente, entrar em conflito com elas. A semelhança está na centralidade do líder. A diferença está no ambiente institucional em que essa liderança opera. Por isso, a direita latino-americana não pode ser considerada simplesmente caudilhista. Existem partidos conservadores tradicionais, liberais, democrata-cristãos, liberais econômicos, nacional- conservadores e outras correntes que funcionam dentro de instituições partidárias e democráticas. O personalismo é apenas uma possibilidade dentro desse universo. Essa observação permite acrescentar um novo eixo à tradicional divisão entre esquerda e direita: o eixo entre institucionalismo e personalismo. Um político pode ser de esquerda e institucionalista. Pode ser de esquerda e personalista. Pode ser de direita e institucionalista. Pode ser de direita e personalista. A posição ideológica não determina automaticamente a maneira como o poder será exercido. Essa distinção ajuda a compreender melhor a América Latina porque permite separar fenômenos que muitas vezes são confundidos. Uma coisa é ser de direita. Outra é ser conservador. Outra é ser populista. Outra é ser autoritário. Outra é ser caudilhista. E outra, ainda, é ser fascista. Essas palavras podem aparecer juntas em determinados momentos históricos, mas não são sinônimas. É justamente por isso que a política contemporânea não pode mais ser compreendida apenas pela velha régua que colocava a esquerda de um lado e a direita do outro. Existem hoje múltiplos eixos de conflito: economia, costumes, nacionalismo, globalização, religião, liberdade individual, autoridade, soberania, imigração, democracia, Estado e mercado. Na América Latina, porém, é necessário acrescentar a questão do personalismo. A história da região mostra que a fragilidade institucional, as desigualdades sociais, as crises econômicas e a desconfiança em relação aos partidos podem favorecer a busca por lideranças apresentadas como capazes de solucionar diretamente os problemas nacionais. Isso não significa que a América Latina esteja condenada ao caudilhismo. Significa apenas que existe uma herança histórica que ajuda a compreender determinadas formas de fazer política. O caudilho do século XIX não voltou. O mundo que o produziu desapareceu. Mas determinadas características da cultura política que o caudilhismo ajudou a formar podem sobreviver: a expectativa pelo homem forte, a desconfiança das instituições, a relação direta entre líder e povo e a ideia de que os problemas nacionais podem ser solucionados mais pela autoridade de uma pessoa do que pela estabilidade das instituições. É nesse ponto que a história encontra o presente. A direita anterior a 1989 pertencia ao mundo da Guerra Fria. A direita contemporânea pertence ao mundo da globalização, das redes sociais, das novas disputas culturais e da crise de representação dos partidos tradicionais. A América Latina, entretanto, carrega uma experiência própria, na qual o personalismo político atravessou diferentes períodos e ideologias. Talvez seja justamente essa a principal lição dessa história: não existe uma única direita, assim como não existe uma única esquerda. Existem famílias políticas, tradições nacionais, circunstâncias históricas e diferentes maneiras de exercer o poder. A queda do Muro de Berlim modificou o mapa político mundial, mas não apagou as tradições políticas de cada região. Na América Latina, o passado caudilhista continuou oferecendo uma chave para compreender a relação entre líderes, massas e instituições. Por isso, analisar a direita contemporânea exige mais do que perguntar se determinado movimento está à direita ou à esquerda. É preciso perguntar também qual é sua relação com a democracia, com as instituições e com o exercício do poder. Porque uma coisa é defender ideias de direita e outra é defender um governo forte. Nesta linha de diferenças da Direita está ainda que uma coisa é cultivar o personalismo. outra é rejeitar o pluralismo e outra, muito diferente, é defender o fascismo. Quando todas essas categorias são colocadas dentro de uma mesma palavra, a história perde suas diferenças. E quando as diferenças desaparecem, desaparece também a possibilidade de compreender o presente. A política latino-americana talvez possa ser melhor compreendida justamente quando se observam simultaneamente esses dois mapas: o mapa ideológico, que vai da esquerda à direita, e o mapa institucional, que vai do institucionalismo ao personalismo. Entre os dois está a história. E é nela que se encontra a explicação para aquilo que, à primeira vista, parece apenas uma repetição do passado.
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HISTÓRIA, PODER E SOCIEDADE
Winston Churchill
Benito Mussolini
Col. José Pereira cidade de Princesa PB
Mentore Conti nasceu em Rieti, na Itália, em 1964, e veio para o Brasil aos seis meses de idade, onde estudou até concluir o curso de Direito em Ribeirão Preto. Retornou posteriormente à Itália, onde viveu por cerca de três anos e trabalhou como radialista na Rádio Mondo de Rieti. De volta ao Brasil, atuou como ator em três peças teatrais no Complexo Cultural Dom Pedro II de Jaboticabal, sob direção do professor Luiz Carlos Peres Cascaldi, e participou, ao lado de Laudo Ferreira Júnior, da criação da história em quadrinhos Hugo Terrara. Iniciou também sua trajetória como jornalista nos jornais Atenas News, de Jaboticabal, A Comarca Regional, de Monte Alto, e na Folha de S. Paulo, na então sucursal de Ribeirão Preto. Jornalista formado em História, Conti atuou como professor da rede estadual entre 1994 e 1997, além de lecionar no Seminário de Jaboticabal e em escola particular. Desde 1999 exerce a advocacia. Trabalhou ainda como radialista e comentarista no programa Bom Dia Cidade, da Rádio Vida Nova Jaboticabal, e participou do projeto Cursinho Unificado Popular, além de escrever durante dois anos para a Revista Ranking Social. Criou o blog Política & Comportamento, posteriormente transformado no projeto Crônica e Arte, site e editora dedicado à informação, cultura, cinema e literatura. É membro da Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil, ocupando a cadeira nº 700, e atualmente desenvolve projetos para o lançamento de livros de contos e poesias
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