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A DIREITA ANTES E DEPOIS DE 1989: DA GUERRA
FRIA AO CAUDILHISMO LATINO-AMERICANO
(PARTE 1) -
Mentore Conti – Mtb 0080415/SP fotos Dominio
Publico - Bibliografia: Livros da Biblioteca deste site e
documentarios em italiano
Jaboticabal 17 de agosto de 2026
Durante grande
parte do século XX,
falar em esquerda e
direita significava
também falar de um
mundo dividido. De
um lado, o
capitalismo
ocidental; de outro,
o socialismo
soviético. Entre os
dois, uma disputa
política, econômica, militar e ideológica que marcou
gerações. A queda do Muro de Berlim, em 9 de
novembro de 1989, não representou apenas a
abertura de uma passagem entre duas partes de uma
cidade. Ela simbolizou o começo do desmoronamento
de uma ordem política que havia organizado o mundo
desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Com o desaparecimento do bloco soviético e,
posteriormente, da própria União Soviética, em 1991,
a direita também passou por uma transformação. Não
porque tenha deixado de existir, mas porque perdeu o
principal adversário que, durante décadas, ajudara a
definir sua identidade: o comunismo. A partir daquele
momento, antigas classificações começaram a perder
parte de sua capacidade de explicar a realidade,
enquanto novos conflitos passaram a ocupar o centro
da política.
Antes de 1989, entretanto, não havia uma única
direita. Existiam várias direitas, muitas vezes
profundamente diferentes entre si. Havia a direita
liberal, defensora da propriedade privada, da
economia de mercado e das instituições
representativas; a direita conservadora, preocupada
com tradição, autoridade, família, religião e
continuidade das instituições sociais; e a democracia-
cristã, particularmente importante na Europa
Ocidental, que procurava combinar democracia
parlamentar, economia de mercado, valores cristãos e
políticas sociais.
Também existia uma direita nacionalista, preocupada
com soberania, identidade nacional e fortalecimento
do Estado, assim como setores autoritários e
movimentos de extrema-direita. Colocar todas essas
correntes dentro de uma mesma definição seria,
portanto, um erro histórico. Um conservador
democrata-cristão da Alemanha Ocidental dos anos
1950 não era politicamente equivalente a um
neofascista italiano. Da mesma maneira, um liberal
econômico britânico não poderia ser automaticamente
colocado na mesma categoria de um nacionalista
autoritário.
O que aproximava grande parte da direita ocidental
durante a Guerra Fria era, sobretudo, o
anticomunismo. Mas até esse elemento comum
possuía origens diferentes. Para alguns, a oposição
ao comunismo vinha da defesa da propriedade
privada e da liberdade econômica. Para outros,
estava relacionada à religião, ao nacionalismo, à
democracia liberal ou simplesmente à rejeição do
sistema soviético. O anticomunismo, portanto,
funcionava como um ponto de convergência entre
correntes que podiam discordar profundamente em
outros assuntos.
Também é importante lembrar que a direita ocidental
do pós-guerra não correspondia necessariamente à
defesa de um Estado mínimo. Muitos partidos
conservadores e democrata-cristãos aceitaram o
Estado de bem-estar social, sistemas públicos de
saúde, previdência e políticas de proteção social. A
oposição entre direita e esquerda não se resumia,
portanto, a uma disputa simplificada entre Estado e
mercado.
Quando o Muro de Berlim caiu, essa arquitetura
política começou a mudar. Durante décadas, uma
pergunta central havia sido como impedir a expansão
do comunismo. Depois
de 1989, essa pergunta
perdeu grande parte de
sua importância. E
quando desaparece o
principal adversário,
também desaparece
parte da identidade
construída em torno da
oposição a ele.
A direita passou então a
encontrar novos temas
para organizar seu
discurso. Globalização,
imigração, integração
europeia, soberania nacional, multiculturalismo,
segurança, costumes, identidade cultural e
transformações econômicas ganharam espaço. A
antiga divisão entre capitalismo e comunismo não
desapareceu completamente, mas deixou de explicar
sozinha a política mundial.
É nesse contexto que surge ou ganha força a
expressão "Nova Direita". O termo, porém, exige
cuidado. Ele não significa simplesmente toda a direita
que apareceu depois de 1989. Algumas correntes
chamadas de Nova Direita surgiram ainda durante a
Guerra Fria e possuem características intelectuais
próprias. Por isso, para designar de maneira mais
ampla a transformação política posterior ao fim da
bipolaridade, é mais preciso falar em direita
contemporânea ou direitas do período pós-Guerra
Fria.
Dentro desse novo cenário continuaram existindo a
direita liberal e a direita conservadora, mas também
ganharam espaço novas formas de nacionalismo e
movimentos que passaram a questionar aspectos da
globalização, da integração supranacional e do
multiculturalismo. Surgiram, assim, diferentes
correntes que a ciência política passou a classificar,
conforme suas características, como direita populista,
direita radical, direita nacional-conservadora ou
extrema-direita.
Essa diferenciação é importante porque direita radical
e extrema-direita não são necessariamente
expressões equivalentes. A chamada direita radical
pode atuar dentro do sistema eleitoral e aceitar
formalmente a democracia, embora possa defender
posições fortemente nacionalistas, restrições à
imigração ou críticas ao liberalismo político e cultural.
Já a extrema-direita costuma designar correntes que
apresentam uma oposição mais profunda à
democracia liberal ou a determinados princípios
fundamentais do pluralismo democrático.
As categorias não são
absolutamente rígidas e variam
de acordo com os autores e as
tradições acadêmicas. Ainda
assim, a distinção ajuda a
evitar um dos maiores
problemas do debate político
contemporâneo: transformar
direita, extrema-direita e
fascismo em palavras
intercambiáveis.
O fascismo histórico nasceu em
circunstâncias específicas do
século XX. O fascismo italiano
de Benito Mussolini surgiu no
ambiente de crise política e
social posterior à Primeira Guerra Mundial, marcado
pela violência política, pelo nacionalismo, pela
mobilização de massas e pela crise das instituições
liberais. O nazismo alemão, por sua vez, apresentou
características próprias, entre elas o racismo
biológico, o antissemitismo radical, o expansionismo
territorial e o totalitarismo.
Por isso, direita, extrema-direita e fascismo precisam
ser compreendidos como conceitos diferentes. A
direita é um campo político amplo; a extrema-direita
corresponde a determinadas correntes situadas em
posições radicais desse campo; e o fascismo é um
fenômeno histórico específico, embora posteriormente
tenham surgido movimentos classificados como
neofascistas.
Essa distinção se torna ainda mais importante quando
olhamos para a América Latina. A história política
latino-americana não pode ser simplesmente
explicada pela experiência europeia. Aqui existe uma
tradição anterior às classificações políticas
contemporâneas e profundamente relacionada à
formação dos Estados nacionais: o caudilhismo.
O caudilhismo foi uma
forma de organização e
exercício do poder
baseada na liderança
pessoal de um chefe, o
caudilho, (a exemplo
Julio de Castilhos -RS e
Cel José Pereira em
Princesa PB) cuja
autoridade dependia
menos de instituições
políticas estáveis e mais
de sua capacidade de
reunir seguidores,
estabelecer relações de
lealdade, controlar
forças ou territórios e
apresentar-se como defensor da ordem, da segurança
ou dos interesses de determinado grupo. O fenômeno
ganhou enorme importância na América Latina do
século XIX, especialmente depois das guerras de
independência, quando os novos Estados ainda
enfrentavam instituições frágeis, conflitos regionais e
dificuldades para estabelecer uma autoridade
nacional efetiva.
O caudilho podia ser militar, proprietário rural, chefe
regional ou líder político. Sua força podia resultar da
combinação entre prestígio pessoal, influência
econômica, poder militar e redes de proteção e
dependência. Em sociedades nas quais o Estado
ainda não possuía força suficiente para impor sua
autoridade sobre todo o território, a figura de um líder
capaz de organizar homens e recursos podia
transformar-se em uma fonte concreta de poder.
É fundamental, porém, não confundir caudilhismo com
uma ideologia específica. O caudilho não era
necessariamente de direita, conservador ou autoritário
no sentido contemporâneo. O caudilhismo é
principalmente uma forma personalista de exercício
do poder. Houve caudilhos associados ao
conservadorismo e ao liberalismo, ao nacionalismo e,
posteriormente, a experiências populistas de
esquerda. O elemento comum não estava
necessariamente no programa político, mas na
concentração da autoridade em uma liderança
pessoal.
Essa característica permite compreender uma das
peculiaridades da política latino-americana. O
caudilho não precisava apresentar uma grande
construção ideológica para conquistar seguidores.
Sua autoridade podia nascer da capacidade de
proteger, organizar, distribuir benefícios, enfrentar
adversários e oferecer uma referência política em
momentos de instabilidade. O poder se estabelecia
através da relação entre o líder e seus seguidores.
É justamente nessa dimensão que encontramos uma
possível aproximação entre o caudilhismo e
determinadas formas de direita latino-americana. A
semelhança não está necessariamente no liberalismo
econômico, no conservadorismo dos costumes ou no
nacionalismo. Está na personalização da autoridade.
Quando a política passa a ser construída em torno de
um líder apresentado como forte, capaz de enfrentar
inimigos, restaurar a ordem e resolver problemas que
as instituições não conseguem solucionar, reaparece
uma característica que lembra a antiga tradição
caudilhista.
O caudilhismo, entretanto, não pode ser confundido
com ditadura. Um caudilho podia chegar ao poder por
meio de uma revolta, de uma guerra civil, de uma
eleição ou de uma combinação de força e apoio
popular. Poderia respeitar parcialmente as instituições
ou destruí-las. Poderia transformar-se em ditador,
mas os dois conceitos não são sinônimos. A
característica central do caudilhismo é o
personalismo, isto é, a concentração da autoridade
política na figura do líder.
No século XX, essa tradição sofreu uma
transformação importante. O antigo chefe regional,
ligado ao território, às forças militares e às redes
locais de dependência, foi progressivamente
substituído pelo líder nacional capaz de mobilizar
grandes massas urbanas. O rádio, os jornais, o
cinema e posteriormente a televisão permitiram que a
relação pessoal entre líder e seguidores
ultrapassasse os limites de uma determinada região.
O caudilhismo encontrou, assim, uma nova linguagem
no populismo. O líder já não precisava controlar
diretamente um território ou uma milícia para
estabelecer uma relação de dependência política.
Poderia oferecer políticas públicas, benefícios sociais,
empregos, obras, segurança ou a promessa de
recuperar a grandeza nacional. A relação pessoal
entre líder e povo poderia sobreviver mesmo dentro
de instituições modernas.
(CONTINUA)
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Julio de castilhos RS