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“POEMA NEGRO” DE AUGUSTO DOS ANJOS Artigo de Mentore Conti Mtb 0080415 SP foto Foto de Tomás Asurmendi – pexels/ (No final da matéria o poema e sua declamação Jaboticabal, 3 de abril de 2026 O poema “Poema Negro”, de Augusto dos Anjos, permanece como uma das expressões mais densas e perturbadoras da literatura brasileira, reunindo elementos de pessimismo existencial, linguagem científica e uma visão profundamente crítica da condição humana. Inserido no universo estético do autor paraibano, o texto reafirma sua singularidade dentro do pré-modernismo, ao tensionar os limites entre poesia, filosofia e biologia. Há algo de visceral em Poema Negro. Não se trata apenas de um exercício poético, mas de uma espécie de autópsia da existência — fria, metódica e, ao mesmo tempo, carregada de uma angústia quase palpável. Ao adentrar o universo de Augusto dos Anjos, o leitor não encontra consolo, nem idealizações: encontra matéria em decomposição, consciência em crise e uma linguagem que rompe com qualquer tradição lírica confortável. A construção do poema é marcada por uma tensão constante entre forma e conteúdo. De um lado, há o rigor métrico herdado de tradições anteriores; de outro, uma escolha vocabular que desafia o lirismo clássico, incorporando termos científicos, anatômicos e até patológicos. Essa fusão cria um efeito de estranhamento que não apenas distancia o leitor, mas o obriga a encarar a realidade sob um prisma quase clínico. A poesia, aqui, deixa de ser ornamento e passa a ser instrumento de dissecação. No centro do poema, está a ideia da degradação inevitável. O corpo humano não é exaltado, mas reduzido à sua condição material — sujeito à ação do tempo, das bactérias, da morte. Essa perspectiva ecoa fortemente as influências do cientificismo do final do século XIX, especialmente das teorias evolucionistas e deterministas. No entanto, Augusto dos Anjos não se limita a reproduzir essas ideias; ele as transforma em matéria poética, criando uma estética própria, onde ciência e angústia existencial caminham lado a lado. É importante notar que essa visão não é apenas biológica, mas também filosófica. O “negro” do título não se refere apenas à cor ou a uma condição externa, mas a um estado de espírito — um mergulho nas regiões mais sombrias da consciência. O eu lírico parece preso em um ciclo de reflexão que não oferece saída: pensar é sofrer, e compreender a própria existência é, paradoxalmente, aprofundar o desespero. Do ponto de vista técnico, o poema revela um domínio impressionante da linguagem. A escolha de palavras raras, muitas vezes derivadas do campo científico, não é gratuita. Ela contribui para a criação de uma atmosfera opressiva, quase sufocante, onde cada termo carrega um peso específico. A sonoridade, por sua vez, reforça essa sensação, com ritmos que alternam entre a cadência tradicional e rupturas abruptas, como se o próprio verso estivesse em processo de decomposição. A fotografia poética de Augusto dos Anjos — se é possível usar esse termo — é marcada por contrastes intensos. Luz e sombra, vida e morte, espírito e matéria coexistem em um equilíbrio instável. Não há tentativa de síntese ou reconciliação; o que existe é o conflito permanente. Essa característica aproxima o poeta de uma sensibilidade moderna, ainda que sua obra esteja cronologicamente inserida no pré-modernismo. Outro aspecto relevante é a ausência de transcendência. Diferentemente de outros poetas que buscam no espiritual uma forma de escape, Augusto dos Anjos parece negar qualquer possibilidade de redenção. O homem está condenado à sua própria materialidade, e o universo não oferece respostas. Essa visão, embora sombria, confere ao poema uma honestidade brutal, que continua a impactar leitores mais de um século após sua publicação. No contexto da literatura brasileira, “Poema Negro” ocupa um lugar singular. Ele não dialoga diretamente com o romantismo, nem se encaixa plenamente no simbolismo. Sua linguagem e temática apontam para uma ruptura que seria aprofundada pelo modernismo, mas sem abandonar completamente as estruturas formais do passado. É justamente essa ambiguidade que torna a obra tão rica e, ao mesmo tempo, tão difícil de classificar. Ler Augusto dos Anjos hoje é, em certa medida, confrontar-se com uma visão radicalmente diferente da poesia. Em um tempo em que a produção literária muitas vezes busca leveza ou identificação imediata, sua obra exige esforço, desconforto e reflexão. Não há concessões ao leitor: o poema impõe seu ritmo, sua linguagem e sua visão de mundo. E talvez seja exatamente isso que mantém sua relevância. Em um cenário cultural marcado por mudanças rápidas e superficiais, a densidade de “Poema Negro” funciona como um contraponto necessário. Ele nos lembra que a literatura pode — e talvez deva — ser um espaço de enfrentamento, onde as questões mais difíceis da existência não são evitadas, mas exploradas em toda a sua complexidade. No fim, o poema não oferece respostas, nem pretende oferecer. Ele se limita a expor, com precisão quase cirúrgica, as contradições e fragilidades do ser humano. E, ao fazê-lo, reafirma a potência da poesia como forma de conhecimento — ainda que esse conhecimento seja, muitas vezes, doloroso. POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça, estudo. Intimamente sei que não me iludo. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres, carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho, e a mim pergunto, na vertigem: — Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco, Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez, à meia-noite, rio Sinistramente, vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte — esta carnívora assanhada — Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho, come... — Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro, Sai para assassinar o mundo inteiro, E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas, Corro. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. . . Mas de repente, ouvindo um grande estrondo, Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me, sozinho, numa cova. Então meu desvario se renova... Como que, abrindo todos os jazigos, A Morte, em trajos pretos e amarelos, Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio; e de declínio Em declínio, com a gula de uma fera, Quis ver o que era, e quando vi o que era, Vi que era pó, vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez, oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza, Perante a qual meus olhos se extasiam... Eu desafio, desta cova escura, No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Tu não és minha mãe, velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes... Por tua causa apodreci nas cruzes, Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntos, Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta, que em mim dorme, acorda em berros Acorda, e após gritar a última injúria, Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosse o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo, Amarrado no horror de tua rede, Deste-me fogo quando eu tinha sede... Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. É Sexta-feira Santa. A treva invade o obscuro orbe terrestre. No Vaticano, em grupos prosternados, Com as longas fardas rubras, os soldados Guardam o corpo do Divino Mestre. Como as estalactites da caverna, Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos... De Jesus Cristo resta unicamente Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Dentro da Igreja de São Pedro, quieta, As luzes funerais arquejam fracas... O vento entoa cânticos de morte. Roma estremece! Além, num rumor forte, Recomeça o barulho das matracas. A desagregação da minha idéia Aumenta. Como as chagas da morféa O medo, o desalento e o desconforto Paralisam-se os círculos motores. Na Eternidade, os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema, no ar de minha terra, Na molécula e no átomo... Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos, Desperto. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E um pedaço de cera derretida! Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme. Eu, somente eu, com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo, enquanto o horror me corta a fala, O aspecto sepulcral da austera sala E a impassibilidade da mobília. Meu coração, como um cristal, se quebre O termômetro negue minha febre, Torne-se gelo o sangue que me abrasa, E eu me converta na cegonha triste Que das ruínas duma casa assiste Ao desmoronamento de outra casa! Ao terminar este sentido poema Onde vazei a minha dor suprema Tenho os olhos em lágrimas imersos... Rola-me na cabeça o cérebro oco. Por ventura, meu Deus, estarei louco?! Daqui por diante não farei mais versos. ciique abaixo e ouça a declamação do Poema negro - Augusto dos Anjos por Othon Bastos
Augusto dos Anjos
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