CRONICA E ARTE CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email cronicaearte@cronicaearte.com.br Rua São João, 869, 14882-010 Jaboticabal SP
ÀS VÉSPERAS DOS 198 ANOS DE JABOTICABAL, UM PRÉDIO HISTÓRICO É DEMOLIDO QUANDO DEVERIA SER RESTAURADO Mentore Conti Mtb 0080415 SP fotos: 1ª foto frame de facebook de Elyer Verdiezoccamartini e 2ª foto Mentore Conti Jaboticabal, 10 de junho de 2026 Às vésperas de completar 198 anos de fundação, no próximo dia 16 de julho, Jaboticabal perde mais um de seus marcos históricos. Foi demolido nesta semana o prédio que abrigou a antiga Escola Bento Vieira, referência educacional entre as décadas de 1920 a 1960 e que, por gerações, fez parte da memória afetiva de milhares de jaboticabalenses. A demolição ocorre justamente quando a cidade se prepara para celebrar mais um aniversário. O contraste é inevitável: enquanto se organizam festividades para exaltar a história do município, um dos poucos testemunhos físicos dessa mesma história desaparece sob os escombros. É lamentável que uma cidade que já recebeu o título de “Atenas Paulista”, reconhecida por sua tradição educacional e cultural, permita a perda de um patrimônio dessa relevância. Jaboticabal também guarda em sua trajetória a presença do escritor e engenheiro Euclides da Cunha, responsável por projetos e construções que ajudaram a moldar a paisagem urbana local. Ainda assim, mais um capítulo dessa memória arquitetônica é encerrado. Não se pode alegar falta de conhecimento técnico. Entre os gestores e administradores públicos do município há historiadores, professores, advogados e pessoas ligadas à cultura. A questão, portanto, não é a ausência de qualificação, mas a falta de prioridade dada à preservação do patrimônio histórico. A pergunta que permanece é simples: o que esperar de uma cidade que deixa ao abandono um prédio de reconhecida importância histórica, mesmo após conquistar o título de Município de Interesse Turístico? Qual o valor desse reconhecimento se não há esforço concreto para preservar os símbolos que contam a própria trajetória da cidade? Poucos municípios do interior paulista possuem uma história tão relevante quanto Jaboticabal. Desmembrada de Araraquara, a cidade foi o ponto de origem de uma vasta região do Estado. De seu antigo território surgiram municípios que hoje possuem grande importância econômica e populacional, como São José do Rio Preto, Catanduva, Jales e dezenas de outras cidades do Noroeste Paulista. Enquanto muitas dessas localidades avançaram na preservação de parte de sua memória histórica, Jaboticabal vê desaparecer mais um de seus marcos urbanos. O Jornal Crônica e Arte publicou anteriormente, um artigo (link no final desta página) destacando a importância da antiga Escola Bento Vieira e de outros prédios da cidade. Após deixar de funcionar como unidade de ensino, o prédio abrigou órgãos públicos, entre eles o Ministério do Trabalho e a Junta de Serviço Militar. Entre as décadas de 1950 e 1960, também serviu como espaço de formação para professores estagiários vinculados ao então Instituto de Educação Aurélio Arrobas Martins. Pouca gente sabe, mas a importância do imóvel vai além de sua arquitetura. Documentos oficiais demonstram que, por meio de lei estadual de 1952, o Grupo Escolar Aurélio Arrobas Martins passou a denominar-se Grupo Escolar Bento Vieira. Em outras palavras, a primeira escola ligada à história do Aurélio Arrobas Martins não foi o edifício atualmente conhecido por esse nome, mas justamente o prédio que acaba de ser demolido. Em diversas ocasiões, ouvi a justificativa de que a construção estaria condenada e que sua recuperação seria impossível. Essa afirmação não resiste a uma análise séria. Em qualquer lugar do mundo onde a cultura e a memória coletiva são valorizadas, edifícios muito mais antigos e deteriorados são restaurados e devolvidos à população. Na cidade italiana de Rieti, por exemplo, onde estão minhas raízes familiares paternas e onde nasci, o centro histórico possui edificações com mais de mil anos de existência. Algumas estruturas remontam até mesmo à época romana. Um dos exemplos mais conhecidos é a Cascata de Mármore, obra de engenharia construída há mais de dois mil anos para controlar enchentes e que permanece preservada até hoje. Não é necessário, porém, atravessar o oceano para encontrar exemplos. Basta olhar para Ribeirão Preto. Embora seja uma cidade mais jovem que Jaboticabal, desenvolve há anos projetos de recuperação de prédios históricos, entre eles o Palácio Rio Branco e outras construções que ajudam a preservar a identidade urbana do município. A ironia é evidente. Durante boa parte de sua história, Jaboticabal exerceu influência regional muito superior à de Ribeirão Preto, sendo um dos centros mais importantes do interior paulista na expansão rumo às fronteiras do Estado e ao Centro-Oeste brasileiro. Hoje, entretanto, vê desaparecer parte de seu patrimônio sem que haja mobilização suficiente para evitar essa perda. Diante disso, cabe uma reflexão. Qual o sentido de promover uma semana inteira de festividades pelos 198 anos de Jaboticabal quando um de seus prédios históricos é deixado ao abandono até o ponto de sua demolição? Nenhum show, por mais grandioso que seja. Nenhuma cerimônia oficial. Nenhum discurso em palanque será capaz de substituir aquilo que foi perdido. O patrimônio histórico não é apenas um conjunto de paredes antigas. Ele representa a memória coletiva, a identidade cultural e o vínculo entre gerações. Quando um prédio histórico desaparece, não se perde apenas uma construção. Perde-se um pedaço da história da cidade. Talvez o aspecto mais triste dessa situação seja justamente saber que ela não ocorreu por falta de conhecimento. O município possui pessoas capacitadas para compreender o valor histórico, arquitetônico e educacional da antiga Escola Bento Vieira. Ainda assim, nada foi feito a tempo de impedir seu desaparecimento. Agora restam apenas fotografias, documentos e lembranças. E a pergunta que continuará ecoando entre aqueles que valorizam a história local é inevitável: se a memória de Jaboticabal não merece ser preservada, então o que exatamente estamos comemorando ao celebrar seus 198 anos? leia também: A MÁ CONSERVAÇÃO DO NOSSO PATRIMONIO CULTURAL: UMA TREGÉDIA ANUNCIADA
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