CRONICA E ARTE CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email
cronicaearte@cronicaearte.com.br Rua São João, 869, 14882-010 Jaboticabal SP
O MORADOR DE RUA COMO "INIMIGO SOCIAL":
QUANDO A VIOLÊNCIA REFLETE UMA IDEOLOGIA DE
EXCLUSÃO
PARTE 2
Mentore Conti – MTB 0080415/SP foto domínio público
Jaboticabal, 2 de agosto de 2026
Ao estudar a
formação da
sociedade
brasileira em
Casa-Grande &
Senzala, Gilberto
Freyre
demonstrou como
a colonização
portuguesa
estruturou
relações
profundamente
hierarquizadas. Embora Freyre tenha enfatizado a intensa
miscigenação cultural ocorrida no Brasil, sua obra também
evidencia que a sociedade nacional foi construída sobre
profundas desigualdades sociais, econômicas e raciais.
Essas diferenças nem sempre assumiram a forma de
segregação legal,
como ocorreu nos
Estados Unidos,
mas
frequentemente se
manifestaram por
meio da exclusão
econômica, da
marginalização
urbana e da
invisibilidade
social.
A população em situação de rua
talvez represente hoje uma das
expressões mais evidentes dessa
invisibilidade. Não raramente, essas
pessoas deixam de ser percebidas
como cidadãos portadores de direitos
fundamentais para serem vistas
apenas como parte da paisagem
urbana. Essa desumanização
favorece a indiferença coletiva e, em
situações extremas, pode contribuir
para que indivíduos pratiquem atos
de violência acreditando que suas
vítimas possuem menor valor
humano.
Os dois casos registrados em
Ribeirão Preto demonstram justamente esse risco. No
primeiro episódio, um homem foi executado enquanto
dormia, completamente indefeso. No segundo, outro
morador de rua foi espancado e incendiado, sofrendo
queimaduras em cerca de vinte por cento do corpo. O
relato de seu irmão, afirmando que a vítima sempre foi
uma pessoa pacífica, reforça que a condição de
vulnerabilidade social jamais pode servir como elemento
de desqualificação moral ou de relativização da gravidade
do crime.
Essa discussão encontra um curioso paralelo na produção
cinematográfica. Em 1971, Stanley Kubrick levou aos
cinemas A Clockwork Orange, cuja tradução literal é "Uma
Laranja Mecânica". O título, derivado de uma expressão
idiomática inglesa, descreve algo aparentemente vivo e
natural, mas que funciona mecanicamente, como se
tivesse perdido sua essência humana.
Muito além da violência gráfica que marcou o filme,
Kubrick construiu uma reflexão sobre a banalização da
agressividade, a manipulação do comportamento humano
e a fragilidade dos limites morais de uma sociedade. O
diretor apresenta um universo em que a violência deixa de
ser um simples ato individual para transformar-se em
sintoma de uma profunda deterioração ética e social.
Embora produzido há mais de cinco décadas, o filme
parece antecipar discussões que permanecem atuais. A
naturalização da brutalidade, a indiferença diante do
sofrimento alheio e a transformação do outro em objeto
descartável são temas que dialogam, infelizmente, com
acontecimentos que continuam a desafiar sociedades
contemporâneas.
A análise cinematográfica dessa obra será desenvolvida
em profundidade em um artigo específico a ser publicado
no Rieti Films, onde serão examinados o roteiro, a
fotografia, a direção de
Stanley Kubrick, a
simbologia da obra e sua
permanência como um
dos mais importantes
estudos cinematográficos
sobre violência e
comportamento humano.
É preciso destacar que
combater crimes dessa
natureza exige mais do
que repressão policial. A
responsabilização dos
autores é indispensável,
mas ela não elimina as
condições sociais que
tornam determinadas populações especialmente
vulneráveis. Políticas públicas voltadas à saúde mental,
assistência social, habitação, combate à dependência
química, reinserção profissional e fortalecimento dos
vínculos familiares constituem instrumentos fundamentais
para reduzir a exclusão.
Ao mesmo tempo, cabe à sociedade rejeitar qualquer
discurso que atribua menor dignidade às pessoas em
razão de sua condição econômica, de sua aparência ou do
lugar onde vivem.
A Constituição
Federal
estabelece que a
dignidade da
pessoa humana
constitui um dos
fundamentos da
República. Esse
princípio não
distingue ricos e
pobres, moradores de bairros nobres ou pessoas que
vivem nas ruas. O direito à vida, à integridade física e ao
respeito pertence igualmente a todos.
Quando um ser humano é assassinado enquanto dorme
ou incendiado após ser brutalmente agredido, não é
apenas uma vítima que sofre. A própria sociedade vê
abalados os valores que sustentam o Estado Democrático
de Direito. A violência deixa de ser apenas um problema
policial para revelar uma crise moral, ética e civilizatória.
Os acontecimentos registrados recentemente em Ribeirão
Preto não devem ser vistos apenas como fatos isolados da
crônica policial. Eles representam um chamado à reflexão
sobre a forma como enxergamos aqueles que vivem à
margem da sociedade. Sempre que uma vida humana é
considerada menos importante do que outra, abre-se
espaço para a intolerância, para a violência e para a
negação da própria humanidade.
Se a história ensina alguma lição, ela demonstra que os
grandes processos de exclusão nunca começam com os
campos de concentração, com os manicômios ou com os
assassinatos. Eles começam muito antes, quando uma
sociedade passa a acreditar que determinadas pessoas
valem menos do que outras. É precisamente essa lógica
que precisa ser combatida para que tragédias como as de
Ribeirão Preto jamais deixem de causar indignação e para
que a dignidade humana permaneça como o verdadeiro
fundamento da convivência civilizada.
Milagre eucaristico de
Lanciano
continue lendo após o anúncio
cena do filme Laranja
mecânica
Favela em Ribeirão Preto
Favela em Ribeirão Preto