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O MORADOR DE RUA COMO "INIMIGO SOCIAL": QUANDO A VIOLÊNCIA REFLETE UMA IDEOLOGIA DE EXCLUSÃO PARTE 2 Mentore Conti – MTB 0080415/SP foto domínio público Jaboticabal, 2 de agosto de 2026 Ao estudar a formação da sociedade brasileira em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre demonstrou como a colonização portuguesa estruturou relações profundamente hierarquizadas. Embora Freyre tenha enfatizado a intensa miscigenação cultural ocorrida no Brasil, sua obra também evidencia que a sociedade nacional foi construída sobre profundas desigualdades sociais, econômicas e raciais. Essas diferenças nem sempre assumiram a forma de segregação legal, como ocorreu nos Estados Unidos, mas frequentemente se manifestaram por meio da exclusão econômica, da marginalização urbana e da invisibilidade social. A população em situação de rua talvez represente hoje uma das expressões mais evidentes dessa invisibilidade. Não raramente, essas pessoas deixam de ser percebidas como cidadãos portadores de direitos fundamentais para serem vistas apenas como parte da paisagem urbana. Essa desumanização favorece a indiferença coletiva e, em situações extremas, pode contribuir para que indivíduos pratiquem atos de violência acreditando que suas vítimas possuem menor valor humano. Os dois casos registrados em Ribeirão Preto demonstram justamente esse risco. No primeiro episódio, um homem foi executado enquanto dormia, completamente indefeso. No segundo, outro morador de rua foi espancado e incendiado, sofrendo queimaduras em cerca de vinte por cento do corpo. O relato de seu irmão, afirmando que a vítima sempre foi uma pessoa pacífica, reforça que a condição de vulnerabilidade social jamais pode servir como elemento de desqualificação moral ou de relativização da gravidade do crime. Essa discussão encontra um curioso paralelo na produção cinematográfica. Em 1971, Stanley Kubrick levou aos cinemas A Clockwork Orange, cuja tradução literal é "Uma Laranja Mecânica". O título, derivado de uma expressão idiomática inglesa, descreve algo aparentemente vivo e natural, mas que funciona mecanicamente, como se tivesse perdido sua essência humana. Muito além da violência gráfica que marcou o filme, Kubrick construiu uma reflexão sobre a banalização da agressividade, a manipulação do comportamento humano e a fragilidade dos limites morais de uma sociedade. O diretor apresenta um universo em que a violência deixa de ser um simples ato individual para transformar-se em sintoma de uma profunda deterioração ética e social. Embora produzido há mais de cinco décadas, o filme parece antecipar discussões que permanecem atuais. A naturalização da brutalidade, a indiferença diante do sofrimento alheio e a transformação do outro em objeto descartável são temas que dialogam, infelizmente, com acontecimentos que continuam a desafiar sociedades contemporâneas. A análise cinematográfica dessa obra será desenvolvida em profundidade em um artigo específico a ser publicado no Rieti Films, onde serão examinados o roteiro, a fotografia, a direção de Stanley Kubrick, a simbologia da obra e sua permanência como um dos mais importantes estudos cinematográficos sobre violência e comportamento humano. É preciso destacar que combater crimes dessa natureza exige mais do que repressão policial. A responsabilização dos autores é indispensável, mas ela não elimina as condições sociais que tornam determinadas populações especialmente vulneráveis. Políticas públicas voltadas à saúde mental, assistência social, habitação, combate à dependência química, reinserção profissional e fortalecimento dos vínculos familiares constituem instrumentos fundamentais para reduzir a exclusão. Ao mesmo tempo, cabe à sociedade rejeitar qualquer discurso que atribua menor dignidade às pessoas em razão de sua condição econômica, de sua aparência ou do lugar onde vivem. A Constituição Federal estabelece que a dignidade da pessoa humana constitui um dos fundamentos da República. Esse princípio não distingue ricos e pobres, moradores de bairros nobres ou pessoas que vivem nas ruas. O direito à vida, à integridade física e ao respeito pertence igualmente a todos. Quando um ser humano é assassinado enquanto dorme ou incendiado após ser brutalmente agredido, não é apenas uma vítima que sofre. A própria sociedade vê abalados os valores que sustentam o Estado Democrático de Direito. A violência deixa de ser apenas um problema policial para revelar uma crise moral, ética e civilizatória. Os acontecimentos registrados recentemente em Ribeirão Preto não devem ser vistos apenas como fatos isolados da crônica policial. Eles representam um chamado à reflexão sobre a forma como enxergamos aqueles que vivem à margem da sociedade. Sempre que uma vida humana é considerada menos importante do que outra, abre-se espaço para a intolerância, para a violência e para a negação da própria humanidade. Se a história ensina alguma lição, ela demonstra que os grandes processos de exclusão nunca começam com os campos de concentração, com os manicômios ou com os assassinatos. Eles começam muito antes, quando uma sociedade passa a acreditar que determinadas pessoas valem menos do que outras. É precisamente essa lógica que precisa ser combatida para que tragédias como as de Ribeirão Preto jamais deixem de causar indignação e para que a dignidade humana permaneça como o verdadeiro fundamento da convivência civilizada.
Milagre eucaristico de Lanciano
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cena do filme Laranja mecânica
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