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MANDI E SOROCABINHA: OS PIONEIROS QUE AJUDARAM A TRANSFORMAR A MÚSICA CAIPIRA EM PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO  Mentore Conti Mtb 0080415 SP fotos internet domínio público Jaboticabal, 7 de julho de 2026 Muito antes da música sertaneja conquistar rádios, programas de televisão e multidões em arenas, a viola já ecoava pelos interiores paulistas contando histórias simples, engraçadas, dramáticas e profundamente humanas. Nesse cenário surgiu a dupla Mandi e Sorocabinha, considerada uma das primeiras formações comerciais da música caipira brasileira e um dos pilares do chamado sertanejo raiz. Formada por Manuel Rodrigues Lourenço, o Mandi, e Olegário José de Godoy, o Sorocabinha, a dupla nasceu em um período em que a cultura caipira ainda era vista com preconceito por parte das elites urbanas. Enquanto o Brasil passava por mudanças sociais e econômicas nas primeiras décadas do século XX, os dois artistas levaram para os discos o linguajar do homem do campo, os costumes do interior e o som da viola caipira. A trajetória de Mandi começou ainda em 1917, quando organizou o Quarteto Caboclo. Professor primário, ele dividia o trabalho na educação com a paixão pela música. Já Sorocabinha vinha de uma tradição popular ligada à viola e ao canto sertanejo. O encontro entre os dois aconteceu graças ao escritor, folclorista e produtor Cornélio Pires, personagem essencial para a consolidação da música caipira no Brasil. Foi Cornélio quem reuniu artistas do interior paulista na famosa “Turma Caipira”, grupo que ajudou a registrar em discos aquilo que até então existia quase exclusivamente nas festas rurais, nos mutirões e nas rodas de viola. Em 1929, a dupla realizou suas primeiras gravações no Rio de Janeiro, iniciando um trabalho que se tornaria histórico. Nas décadas seguintes, Mandi e Sorocabinha gravaram dezenas de discos pelas gravadoras Columbia, Odeon, Parlophon e RCA Victor. Segundo Mandi, nas primeiras gravações realizadas pela RCA Victor, a dupla utilizou seus nomes próprios, e não os nomes artísticos Mandi e Sorocabinha. Naquele período, a gravadora optou por identificar os artistas pelos seus nomes de batismo, preservando a forma como eram oficialmente apresentados em seus primeiros registros fonográficos. Ainda de acordo com Mandi, foi somente nas gravações realizadas por outras gravadoras, após o encerramento do contrato com a RCA Victor, que a dupla passou a adotar os nomes artísticos Mandi e Sorocabinha. A partir dessa nova fase da carreira, a denominação tornou-se definitiva e passou a identificar os artistas junto ao público e ao mercado fonográfico. O repertório da dupla era extremamente variado. Havia modas de viola tradicionais, desafios humorísticos, críticas sociais e músicas inspiradas em acontecimentos reais do país. Canções como “A Crise”, “Tempo Ruim”, “Depois das Eleições” e “A Guerra da Espanha” mostravam que a música caipira também funcionava como um retrato histórico do Brasil e do mundo. Ao mesmo tempo, músicas como “Caninha Verde”, “Passeio de Caipira” e “Vida de Roceiro” preservavam o espírito rural, a oralidade popular e os ritmos herdados da cultura paulista tradicional. A importância desse repertório vai além do entretenimento. Muitas gravações de Mandi e Sorocabinha servem hoje como documentos culturais de uma época em que o interior paulista ainda mantinha fortes tradições herdadas da chamada Paulistânia — região cultural que influenciou São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Paraná. A viola caipira, os ritmos de cururu, cateretê e moda de viola surgiram desse ambiente rural e acabaram moldando a identidade da música sertaneja brasileira. Musicalmente, a dupla ajudou a consolidar o formato que se tornaria clássico no sertanejo raiz: duas vozes em dueto, viola marcante e letras ligadas ao cotidiano do homem simples. Décadas depois, artistas como Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho e Milionário & José Rico ampliariam essa herança, cada um incorporando novos estilos sem abandonar completamente as raízes deixadas pelos pioneiros. Já nos anos 1980 e 1990, o sertanejo passou por forte modernização com duplas como Chitãozinho & Xororó e Zezé Di Camargo & Luciano, aproximando-se da música pop e urbana. Mesmo com todas as transformações sofridas pelo gênero, o trabalho de Mandi e Sorocabinha permanece como um marco fundador. Eles ajudaram a provar que a cultura do interior tinha valor artístico, identidade própria e força popular. Em um período em que o Brasil ainda construía sua indústria fonográfica, a dupla mostrou que a viola caipira poderia sair dos sítios e alcançar todo o país. Hoje, suas gravações são lembradas por pesquisadores, colecionadores e admiradores do sertanejo raiz como parte fundamental da memória musical brasileira. Mais do que pioneiros, Mandi e Sorocabinha foram cronistas de um Brasil rural que já mudou muito, mas que continua vivo nas modas antigas e no som da viola.
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*No final do artigo duas gravações com a dupla
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