CRONICA E ARTE CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email cronicaearte@cronicaearte.com.br Rua São João, 869, 14882-010 Jaboticabal SP
A HISTÓRIA POR TRÁS DA “MODA DA PINGA”: DE JOSÉ INOCÊNCIO A INEZITA BARROSO Bem-vindos à nova coluna "Sons do Brasil", um espaço dedicado a desvendar as batidas que pulsam no coração da nação. Em um mundo cada vez mais globalizado, falar da música brasileira não é apenas um prazer auditivo, mas uma necessidade cultural. Ela representa nossa identidade multifacetada, unindo gerações e territórios em ritmos que ecoam história, luta e celebração. De samba a forró, do maracatu ao frevo, esses sons são o espelho de um povo que transforma dor em dança e diversidade em harmonia. No cerne dessa riqueza sonora está o folclore brasileiro, tecelão de tradições orais que florescem nas festas juninas, nos congados e nas cirandas. A religiosidade africana, trazida nas embarcações da diáspora, injeta alma e swing: o candomblé pulsa no atabaque do samba de roda baiano, enquanto o umbanda ecoa nos pontos cantados que invocam orixás. Esses elementos não são meros ingredientes; são a essência que dá profundidade emocional à nossa música, provando que o Brasil é, acima de tudo, um caldeirão de resistências ancestrais. Não paramos por aí: os ritmos indígenas, como o carimbó amazônico e o toré do Nordeste, adicionam texturas primitivas e conectadas à terra, enquanto a imigração europeia trouxe polcas, tangos e valsas que se fundiram ao sertanejo raiz e ao chamamé gaúcho. Essa fusão revela a importância vital de celebrarmos esses ritmos: eles preservam memórias coletivas, fomentam o turismo cultural e inspiram artistas globais. Na "Sons do Brasil", mergulharemos nesses universos sonoros, convidando você a dançar com nossa herança. Tambem nesta coluna falaremos de outros gêneros da música brasileira, e ao contrário da coluna músicos e compositores esta coluna tratará mais dos gêneros, complementando aquela coluna. Como primeiro artigo, vamos contar sobre uma música conhecidíssima. a história da moda da “pinga”. Começando assim por um gênero musical brasileiro que tem inúmeras facetas, desde a primeira gravação da “Turma do Cornélio Pires” com “Jorginho do Sertão”, passando pela evolução com Raul Torres, Liu e Léu, Mariano, Tonico e Tinoco, Miltinho Rodrigues, até chegar ao sertanejo de hoje e ao estilo sofrência, que se aproxima do bolero. Nesta série de artigos, não vou seguir exatamente uma cronologia, e a ideia maior, depois, é a reunião desses textos de música caipira em um volume escrito — mas isso demandará tempo. Por ora, vamos à história de hoje: A “Moda da Pinga”, também amplamente conhecida como “Marvada Pinga”, transcende a condição de mera canção para se firmar como um verdadeiro hino da música caipira brasileira. Sua melodia e letra, que retratam de forma bem- humorada e por vezes melancólica a relação do homem do campo com a cachaça, conquistaram gerações e se enraizaram profundamente na cultura popular. No entanto, a história de sua autoria e os personagens envolvidos em sua gênese são marcados por nuances e curiosidades que revelam a riqueza da tradição oral e da transmissão musical no Brasil. Este artigo busca desvendar a trajetória dessa emblemática canção, desde a misteriosa citação de um “José Inocêncio” por Mariano, da dupla Mariano e Caçula, até sua consagração nacional na voz de Inezita Barroso, explorando as diferentes camadas de sua criação e impacto cultural. A Origem e a Citação de José Inocêncio A primeira gravação conhecida da “Moda da Pinga” remonta ao período entre o final de 1929 e o início de 1930, realizada pela dupla Mariano e Caçula, integrantes da Turma Caipira de Cornélio Pires. O que torna essa gravação particularmente interessante é a introdução falada, um elemento comum nas modas de viola da época, onde Mariano questiona Caçula sobre a autoria da “moda nova”. Caçula, por sua vez, responde que a canção é de um morador de Mogi das Cruzes, São Paulo, chamado José Inocêncio, ou carinhosamente referido como Zé Inocente [1] [2]. Essa citação inicial gerou, ao longo dos anos, um certo mistério em torno da figura de José Inocêncio. Seria ele o verdadeiro compositor? Um mestre violeiro local? Ou um apelido para alguém já conhecido? A oralidade, característica marcante da música caipira, permitia que as canções circulassem e fossem adaptadas antes de um registro formal, tornando a identificação exata da autoria um desafio. Ochelsis Laureano: O Compositor Registrado e a musica. Contrariando a citação inicial de Mariano e Caçula, os registros oficiais e a historiografia da música brasileira atribuem a autoria da “Moda da Pinga” a Ochelsis Laureano em parceria com Raul Torres (do qqual falaremos proximamente) [3] [4]. Ochelsis Laureano, nascido em Mogi das Cruzes em 18 de julho de 1911, era um compositor prolífico e figura importante no cenário da música caipira. Curiosamente, na época da primeira gravação por Mariano e Caçula, Laureano teria apenas 18 ou 19 anos [5]. A discrepância entre a citação de “José Inocêncio” e a autoria registrada de Ochelsis Laureano levanta algumas hipóteses. É possível que “José Inocêncio” fosse um apelido ou um nome artístico utilizado por Ochelsis Laureano em seus primeiros anos de composição. Outra possibilidade é que José Inocêncio fosse um violeiro mais velho e experiente de Mogi das Cruzes, que teria ensinado a melodia ou parte da letra a um jovem Ochelsis Laureano, que posteriormente a desenvolveu e registrou. A tradição de atribuir a autoria a um “mestre” ou a uma figura local era comum, mesmo que a composição final fosse de outro indivíduo. De fato, Laureano é reconhecido por outros sucessos e por sua ligação com Mogi das Cruzes [6]. A canção popularmente conhecida como "Moda da Pinga", ou "Marvada Pinga", é, na verdade, a mesma composição que foi originalmente intitulada "Festança No Tietê". Criada por Ochelsis Laureano, esta obra é um clássico da música caipira brasileira. A gravação pioneira foi realizada por Raul Torres em 1937, mas foi a interpretação de Inezita Barroso que a popularizou amplamente, consolidando-a no imaginário popular com o título "Moda da Pinga". Portanto, não se trata de uma sequência de músicas, mas sim de diferentes nomes para a mesma e icônica canção. "Festança No Tietê" descreve de forma pitoresca e bem-humorada as peripécias de um indivíduo que se entrega aos prazeres da cachaça, resultando em situações cômicas e embaraçosas. A letra, rica em regionalismos e expressões populares, retrata a cultura do interior e a relação com a bebida de forma leve e divertida. A melodia, característica da moda de viola, contribui para a atmosfera festiva e descontraída da canção, que se tornou um hino informal para muitos apreciadores da cultura caipira e da boa pinga [4] [5]. A Consagração por Inezita Barroso Embora a “Moda da Pinga” já fosse conhecida e gravada por outras duplas, foi na voz de Inezita Barroso que a canção alcançou o estrelato e se tornou um ícone cultural. Inezita, uma das maiores intérpretes da música raiz brasileira, gravou a música em 1953, e sua interpretação se tornou a versão definitiva e mais reconhecida da canção. A performance de Inezita Barroso não apenas popularizou a “Moda da Pinga” para um público muito mais amplo, mas também solidificou sua posição como um clássico. Sua voz marcante e sua autenticidade ao interpretar a cultura caipira deram à música uma nova dimensão, transformando-a em um símbolo da identidade rural brasileira. A canção se tornou um dos maiores sucessos de sua carreira e é frequentemente associada à sua imagem. Legado e Importância Cultural A “Moda da Pinga” é mais do que uma simples canção sobre bebida; ela é um retrato social e cultural de uma época e de um modo de vida. A música aborda temas como a alegria, a tristeza, a simplicidade e as complexidades da vida no campo, utilizando a figura da cachaça como um elemento central na narrativa. Sua longevidade e a capacidade de se manter relevante ao longo de décadas atestam sua profundidade e apelo universal. O caso da autoria da “Moda da Pinga” também ilustra a dinâmica da criação musical popular, onde a colaboração, a inspiração e a transmissão oral desempenham papéis cruciais. A figura de José Inocêncio, mesmo que envolta em mistério, permanece como parte integrante da lenda da canção, um testemunho da rica tapeçaria de influências que moldaram a música caipira. A consagração por Inezita Barroso, por sua vez, garantiu que a “Moda da Pinga” fosse preservada e celebrada como um patrimônio cultural do Brasil. Conclusão A “Moda da Pinga” é um exemplo notável de como uma canção pode transcender suas origens e se tornar um fenômeno cultural. A jornada desde a citação de um “José Inocêncio” de Mogi das Cruzes por Mariano e Caçula, passando pela autoria registrada de Ochelsis Laureano e Raul Torres, até a imortalização na voz de Inezita Barroso, é um testemunho da complexidade e da beleza da música caipira. A canção continua a ressoar com o público, não apenas por sua melodia cativante e letra espirituosa, mas também por sua capacidade de evocar um pedaço autêntico da alma brasileira. Referências [1] MARVADA PINGA / PRIMEIRA GRAVAÇÃO. Com Zé Mariano e Caçula. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch? v=dF0CuRv8YWA 2 A indústria fonográfica e a música caipira gravada. Academia.edu. Disponível em: https://www.academia.edu/125216356/A_ind%C3%B Adustria_fonogr%C3%A1fica_e_a_m%C3%BAsica_c aipira_gravada_uma_ex [3] Compositores e Poetas da Música Caipira Raiz. Boa Música Ricardinho. Disponível em: https://www.boamusicaricardinho.com/comppoet_23. html [4] PUC-SP Fabíola Mirella Dias Roque da Silva As. Sapientia PUCSP. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/24780/1/F ab%C3%ADola%20Mirella%20Dias%20Roque%20da %20Silva.pdf [5] COMPOSITORES E POETAS SERTANEJOS. Blogspot. Disponível em: http://r- sertaneja.blogspot.com/2019/02/compositores- epoetas-sertanejos.html [6] Novos Caipiras. Boa Música Ricardinho. Disponível em: https://www.boamusicaricardinho.com/index_int_27_n ovoscaipiras.html [7] Inezita Barroso: Com A Espada e A Viola Na Mão. Scribd. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/259061801/Inezita- Barroso-com-a-espada-e-a-viola-na-mao [8] Inezita Barroso - Dicionário Cravo Albin. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/artista/inezita-barroso/ Festança No Tietê: (primeira versão da musica)
Sons e Ritmos do Brasil: os Ritmos e Estilos Nacionais IN RIVISTA
Por Mentore Conti Mtb 0080415 SP
1ª E 2ª foto Inezita Barroso 3ª foto Ochelsis Laureano 4ª foto Raul Torres no final video com as versoes da musica
marvada pinga Zé Mariano e Caçula
a musica com Inezita Barrozo (vejam que ela canta as duas versoes anteriores juntas nesta gravação)
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