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A HISTÓRIA POR TRÁS DA “MODA DA PINGA”: DE JOSÉ INOCÊNCIO A INEZITA BARROSOBem-vindos à nova coluna "Sons do Brasil", um espaço dedicado a desvendar as batidas que pulsam no coração da nação. Em um mundo cada vez mais globalizado, falar da música brasileira não é apenas um prazer auditivo, mas uma necessidade cultural. Ela representa nossa identidade multifacetada, unindo gerações e territórios em ritmos que ecoam história, luta e celebração. De samba a forró, do maracatu ao frevo, esses sons são o espelho de um povo que transforma dor em dança e diversidade em harmonia.No cerne dessa riqueza sonora está o folclore brasileiro, tecelão de tradições orais que florescem nas festas juninas, nos congados e nas cirandas. A religiosidade africana, trazida nas embarcações da diáspora, injeta alma e swing: o candomblé pulsa no atabaque do samba de roda baiano, enquanto o umbanda ecoa nos pontos cantados que invocam orixás. Esses elementos não são meros ingredientes; são a essência que dá profundidade emocional à nossa música, provando que o Brasil é, acima de tudo, um caldeirão de resistências ancestrais.Não paramos por aí: os ritmos indígenas, como o carimbó amazônico e o toré do Nordeste, adicionam texturas primitivas e conectadas à terra, enquanto a imigração europeia trouxe polcas, tangos e valsas que se fundiram ao sertanejo raiz e ao chamamé gaúcho. Essa fusão revela a importância vital de celebrarmos esses ritmos: eles preservam memórias coletivas, fomentam o turismo cultural e inspiram artistas globais. Na "Sons do Brasil", mergulharemos nesses universos sonoros, convidando você a dançar com nossa herança.Tambem nesta coluna falaremos de outros gêneros da música brasileira, e ao contrário da coluna músicos e compositores esta coluna tratará mais dos gêneros, complementando aquela coluna.Como primeiro artigo, vamos contar sobre uma música conhecidíssima. a história da moda da “pinga”. Começando assim por um gênero musical brasileiro que tem inúmeras facetas, desde a primeira gravação da “Turma do Cornélio Pires” com “Jorginho do Sertão”, passando pela evolução com Raul Torres, Liu e Léu, Mariano, Tonico e Tinoco, Miltinho Rodrigues, até chegar ao sertanejo de hoje e ao estilo sofrência, que se aproxima do bolero.Nesta série de artigos, não vou seguir exatamente uma cronologia, e a ideia maior, depois, é a reunião desses textos de música caipira em um volume escrito — mas isso demandará tempo. Por ora, vamos à história de hoje:A “Moda da Pinga”, também amplamente conhecida como “Marvada Pinga”, transcende a condição de mera canção para se firmar como um verdadeiro hino da música caipira brasileira. Sua melodia e letra, que retratam de forma bem-humorada e por vezes melancólica a relação do homem do campo com a cachaça, conquistaram gerações e se enraizaram profundamente na culturapopular.No entanto, a história de sua autoria e os personagens envolvidos em sua gênese são marcados por nuances e curiosidades que revelam a riqueza da tradição oral e da transmissão musical no Brasil. Este artigo busca desvendar a trajetória dessa emblemática canção, desde a misteriosa citação de um “José Inocêncio” por Mariano, da dupla Mariano e Caçula, até sua consagração nacional na voz de Inezita Barroso, explorando as diferentes camadas de sua criação e impacto cultural.A Origem e a Citação de José InocêncioA primeira gravação conhecida da “Moda da Pinga” remonta ao período entre o final de 1929 e o início de 1930, realizada pela dupla Mariano e Caçula, integrantes da Turma Caipira de Cornélio Pires. O que torna essa gravação particularmente interessante é a introdução falada, um elemento comum nas modas de viola da época, onde Mariano questiona Caçula sobre a autoria da “moda nova”. Caçula, por sua vez, responde que a canção é de um morador de Mogi das Cruzes, São Paulo, chamado José Inocêncio, ou carinhosamente referido como Zé Inocente [1] [2].Essa citação inicial gerou, ao longo dos anos, um certo mistério em torno da figura de José Inocêncio. Seria ele o verdadeiro compositor? Um mestre violeiro local? Ou um apelido para alguém já conhecido? A oralidade, característica marcante da música caipira, permitia que as canções circulassem e fossem adaptadas antes de um registro formal, tornando a identificação exata da autoria um desafio.Ochelsis Laureano: O Compositor Registrado e a musica.Contrariando a citação inicial de Mariano e Caçula, os registros oficiais e a historiografia da música brasileira atribuem a autoria da “Moda da Pinga” a Ochelsis Laureano em parceria com Raul Torres (do qqual falaremos proximamente) [3] [4]. Ochelsis Laureano, nascido em Mogi das Cruzes em18 de julho de 1911, era um compositor prolífico e figura importante no cenário da música caipira.Curiosamente, na época da primeira gravação por Mariano e Caçula, Laureano teria apenas 18 ou 19 anos [5].A discrepância entre a citação de “José Inocêncio” e a autoria registrada de Ochelsis Laureano levanta algumas hipóteses. É possível que “José Inocêncio” fosse um apelido ou um nome artístico utilizado por Ochelsis Laureano em seus primeiros anos de composição.Outra possibilidade é que José Inocêncio fosse um violeiro mais velho e experiente de Mogi das Cruzes, que teria ensinado a melodia ou parte da letra a um jovem Ochelsis Laureano, que posteriormente a desenvolveu e registrou. A tradição de atribuir a autoria a um “mestre” ou a uma figura local era comum, mesmo que a composição final fosse de outro indivíduo. De fato, Laureano é reconhecido por outros sucessos e por sua ligação com Mogi das Cruzes [6].A canção popularmente conhecida como "Moda da Pinga", ou "Marvada Pinga", é, na verdade, a mesma composição que foi originalmente intitulada "Festança No Tietê". Criada por Ochelsis Laureano, esta obra é um clássico da música caipira brasileira. A gravação pioneira foi realizada por Raul Torres em 1937, mas foi a interpretação de Inezita Barroso que a popularizou amplamente, consolidando-a no imaginário popular com o título "Moda da Pinga". Portanto, não se trata de uma sequência de músicas, mas sim de diferentes nomes para a mesma e icônica canção."Festança No Tietê" descreve de forma pitoresca e bem-humorada as peripécias de um indivíduo que se entrega aos prazeres da cachaça, resultando em situações cômicas e embaraçosas. A letra, rica em regionalismos e expressões populares, retrata a cultura do interior e a relação com a bebida de forma leve e divertida. A melodia, característica da moda de viola, contribui para a atmosfera festiva e descontraída da canção, que se tornou um hino informal para muitos apreciadores da cultura caipira e da boa pinga [4] [5].A Consagração por Inezita BarrosoEmbora a “Moda da Pinga” já fosse conhecida e gravada por outras duplas, foi na voz de Inezita Barroso que a canção alcançou o estrelato e se tornou um ícone cultural. Inezita, uma das maiores intérpretes da música raiz brasileira, gravou a música em 1953, e sua interpretação se tornou a versão definitiva e mais reconhecida da canção.A performance de Inezita Barroso não apenas popularizou a “Moda da Pinga” para um público muito mais amplo, mas também solidificou sua posição como um clássico. Sua voz marcante e sua autenticidade ao interpretar a cultura caipira deram à música uma nova dimensão, transformando-a em um símbolo da identidade rural brasileira. A canção se tornou um dos maioressucessos de sua carreira e é frequentemente associada à sua imagem.Legado e Importância CulturalA “Moda da Pinga” é mais do que uma simples canção sobre bebida; ela é um retrato social e cultural de uma época e de um modo de vida. A música aborda temas como a alegria, a tristeza, a simplicidade e as complexidades da vida no campo, utilizando a figura da cachaça como um elemento central na narrativa.Sua longevidade e a capacidade de se manter relevante ao longo de décadas atestam sua profundidade e apelo universal. O caso da autoria da “Moda da Pinga” também ilustra a dinâmica da criação musical popular, onde a colaboração, a inspiração e a transmissão oral desempenham papéis cruciais.A figura de José Inocêncio, mesmo que envolta em mistério, permanece como parte integrante da lenda da canção, um testemunho da rica tapeçaria de influências que moldaram a música caipira. Aconsagração por Inezita Barroso, por sua vez, garantiu que a “Moda da Pinga” fosse preservada e celebrada como um patrimônio cultural do Brasil.ConclusãoA “Moda da Pinga” é um exemplo notável de como uma canção pode transcender suas origens e se tornar um fenômeno cultural.A jornada desde a citação de um “José Inocêncio” de Mogi das Cruzes por Mariano e Caçula, passando pela autoria registrada de Ochelsis Laureano e Raul Torres, até a imortalização na voz de Inezita Barroso, é um testemunho da complexidade e da beleza da música caipira. A canção continua a ressoar com o público, não apenas por sua melodia cativante e letra espirituosa, mastambém por sua capacidade de evocar um pedaço autêntico da alma brasileira.Referências[1] MARVADA PINGA / PRIMEIRA GRAVAÇÃO. Com Zé Mariano e Caçula. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dF0CuRv8YWA 2 A indústria fonográfica e a música caipira gravada. Academia.edu. Disponível em:https://www.academia.edu/125216356/A_ind%C3%BAdustria_fonogr%C3%A1fica_e_a_m%C3%BAsica_caipira_gravada_uma_ex[3] Compositores e Poetas da Música Caipira Raiz. Boa Música Ricardinho. Disponível em:https://www.boamusicaricardinho.com/comppoet_23.html [4] PUC-SP Fabíola Mirella Dias Roque da Silva As. Sapientia PUCSP.Disponível em:https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/24780/1/Fab%C3%ADola%20Mirella%20Dias%20Roque%20da%20Silva.pdf [5]COMPOSITORES E POETAS SERTANEJOS. Blogspot. Disponível em: http://r-sertaneja.blogspot.com/2019/02/compositores-epoetas-sertanejos.html [6] Novos Caipiras. Boa Música Ricardinho. Disponível em:https://www.boamusicaricardinho.com/index_int_27_novoscaipiras.html [7] Inezita Barroso: Com A Espada e A Viola Na Mão.Scribd. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/259061801/Inezita-Barroso-com-a-espada-e-a-viola-na-mao [8] InezitaBarroso - Dicionário Cravo Albin. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em:https://dicionariompb.com.br/artista/inezita-barroso/ Festança No Tietê: (primeira versão da musica)
Por Mentore Conti Mtb 0080415 SP
1ª E 2ª foto Inezita Barroso 3ª foto Ochelsis Laureano 4ª foto Raul Torresno final video com as versoes da musica
marvada pinga Zé Mariano e Caçula
a musica com Inezita Barrozo (vejam que ela canta as duas versoes anteriores juntas nesta gravação)