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DOIS FILHOS DE JABOTICABAL EM LADOS OPOSTOS DA
HISTÓRIA: ALFREDO BUZAID E JOAQUIM CÂMARA FERREIRA
Mentore Conti – MTB 0080415/SP (colaboração de Ademar
Custódio - titular e oficial responsável pelo Cartório de Registro
Civil principal de Jaboticabal) - primeira parte, no final da página
link para a segunda e última parte do artigo
Fotos: Domínio Público (na primeira foto: Buzaid e ao lado Joaquim
Camara)
Jaboticabal, 24 de junho de 2026
A um mês dos 198 anos de
fundação de Jaboticabal, o
Jornal Crônica e Arte
relembra a trajetória de dois
personagens que alcançaram
projeção nacional em
campos políticos opostos:
Joaquim Câmara Ferreira e
Alfredo Buzaid. Filhos da
mesma cidade e
contemporâneos, suas vidas
refletem os intensos debates
ideológicos que marcaram o Brasil no século XX. Ao revisitar suas
histórias, o jornal contribui para a preservação da memória e da
identidade histórica jaboticabalense.
Durante a Ditadura Militar brasileira (1964-1985) estes personagens
marcaram profundamente a história nacional. Ligados a
Jaboticabal, nascidos em datas próximas (1913 e 1914), acabaram
se tornando símbolos de campos políticos
opostos durante um dos períodos mais
tensos do século XX.
De um lado, Alfredo Buzaid, jurista,
professor universitário e ministro da Justiça
do governo do general Emílio Garrastazu
Médici. De outro, Joaquim Câmara
Ferreira, jornalista, militante comunista e
um dos principais dirigentes da Ação
Libertadora Nacional (ALN), organização
fundada por Carlos Marighella para
combater o regime militar.
A coincidência de terem nascido com
menos de um ano de diferença e possuírem vínculos com a mesma
cidade torna suas trajetórias ainda mais emblemáticas. Enquanto
um se tornou um dos principais formuladores jurídicos do regime, o
outro dedicou sua vida à luta contra a ditadura, terminando seus
dias como vítima da repressão política.
Alfredo Buzaid e a defesa institucional do regime
Alfredo Buzaid nasceu em Jaboticabal, em julho de 1914, filho de
uma família de origem árabe. Desde jovem destacou-se pelos
estudos e seguiu carreira no Direito. Formou-se advogado e,
posteriormente, tornou-se professor da tradicional Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo (USP), onde alcançou grande
prestígio acadêmico.
Na juventude, teve ligação com o movimento integralista, liderado
por Plínio Salgado. O Integralismo, inspirado em correntes
nacionalistas e autoritárias europeias, defendia um modelo político
fortemente anticomunista, características que influenciariam parte
do pensamento político brasileiro nas décadas seguintes.
No início de sua carreira, escreveu ativamente para o jornal O
Combate, de Jaboticabal. Formado pela Faculdade de Direito da
USP, advogou na cidade durante os primeiros anos de sua trajetória
profissional antes de se transferir para São Paulo.
Com o passar dos anos, Buzaid
consolidou-se como um dos maiores
especialistas em Direito Processual Civil do
país. Sua reputação acadêmica abriu
portas para uma atuação mais próxima do
poder político durante o regime militar
instaurado em 1964.
Em 1969, assumiu o Ministério da Justiça
no governo do presidente Emílio
Garrastazu Médici, período considerado o
mais rígido da ditadura. Como ministro,
participou da formulação de políticas
jurídicas e institucionais do regime,
defendendo a legitimidade da chamada
Revolução de 1964 e a necessidade de
combate ao comunismo.
Paralelamente à atuação política, Buzaid deixou uma contribuição
duradoura para o Direito brasileiro ao coordenar a elaboração do
Código de Processo Civil de 1973, legislação que permaneceu em
vigor por mais de quarenta anos e influenciou gerações de
magistrados, advogados e professores. Também participou da
elaboração da Lei de Registros Públicos, ainda em vigor.
Sua trajetória ficou marcada pela combinação entre a produção
jurídica de alto nível e a participação ativa em um governo militar
que restringiu liberdades políticas e civis em plena Guerra Fria. Em
1982, foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Joaquim Câmara Ferreira: das raízes jaboticabalenses à resistência
armada
Nascido em São Paulo, em 5 de setembro de 1913, e de acordo
com a Curia Diocesana de Jaboticabal, batizado em 6 de dezembro
do mesmo ano, teve como padrinhos Francisco Baptista Ferreira e
Ana Maria Assunção e representante Eucina Guarita.
Joaquim Camara conhecido na historia do Brasil como
Comandante Toledo, ou «O Velho», passou a viver em Jaboticabal
ainda recém-nascido, após a morte de sua mãe. Possuía profundas
ligações com a história política
do município, sendo membro
da família do fundador da
cidade.
A polêmica sobre o local de
nascimento de Joaquim
Câmara Ferreira levou à
realização de uma pesquisa
nos livros do Cartório de
Registro Civil de Jaboticabal
referentes ao período de 1912
a 1914. Nenhum registro de nascimento em seu nome foi
encontrado.
Com a ausência de documentação que comprove seu nascimento
em Jaboticabal, permanece como única versão documentalmente
sustentada a de que ele nasceu na cidade de São Paulo. Ainda
assim, Joaquim Câmara possuía fortes vínculos com Jaboticabal,
por pertencer a uma das famílias mais tradicionais do município,
descendente do fundador da cidade.
Era filho de Joaquim Batista Sobrinho, ex-prefeito de Jaboticabal, e
de Cleonice Câmara Ferreira, que faleceu vinte dias após seu
nascimento em decorrência de complicações do parto.
Portanto, pertencia a uma família tradicional e conhecida na política
local das primeiras décadas do século XX.
Criado em um ambiente de intensa participação pública, Joaquim
seguiu caminho diferente daquele que o destino reservaria a
Buzaid. Transferiu-se para São Paulo, onde atuou como jornalista e
aproximou-se das ideias de esquerda, filiando-se ao Partido
Comunista Brasileiro (PCB) em 1933.
Durante a década de 1930, destacou-se na Federação da
Juventude Comunista e na redação do jornal Vanguarda Estudantil.
Com a instauração do Estado Novo, em 1937, mergulhou na
clandestinidade para organizar o partido junto ao setor ferroviário.
Em 1939, foi preso na gráfica do PCB, sofrendo torturas antes de
ser enviado ao presídio da Ilha Grande. Permaneceu encarcerado
até março de 1945, quando foi libertado em razão da anistia
concedida naquele período. Posteriormente, passou a trabalhar nos
Diários Associados.
Em 1946, consolidou sua liderança regional ao ser eleito vereador
em Jaboticabal, cidade que representava sua principal base política
familiar. Contudo, em 1947, o registro do PCB foi cancelado pelo
governo Dutra, iniciando um novo ciclo de perseguições. Seu
mandato foi cassado em 1948, obrigando-o a retornar
gradualmente às estruturas clandestinas de atuação política.
Nesse período, exerceu a direção dos jornais Hoje e Notícias de
Hoje, órgãos centrais da imprensa comunista brasileira. Sua
relevância dentro do Comitê Central do partido levou-o a participar
de missões de formação política no exterior.
Por volta de 1949, Joaquim viajou para a União Soviética para
realizar cursos avançados de formação ideológica. Em Moscou,
estudou estratégia revolucionária e organização partidária em
escolas de quadros soviéticas.
A estadia na URSS permitiu que estabelecesse contatos
internacionais e conhecesse a realidade do bloco socialista. Essa
experiência foi importante para sua posterior atuação junto ao
movimento operário brasileiro. Ao retornar ao país, participou da
organização de mobilizações sindicais, entre elas a greve geral de
1953.
(continua)
LA STORIA
Mentore Conti é Professor de História e
advogado também
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