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A FERROVIA QUE TRANSFORMOU JABOTICABAL: O "DIA
DA TRISTEZA", O FIM DOS TRILHOS E O LEGADO QUE
PERMANECE (PARTE 2)
Mentore Conti – MTB 0080415/SP
Fotos: Acervo histórico, Companhia Paulista de Estradas de
Ferro, Estações Ferroviárias e coleções particulares.
Jaboticabal, 7 de julho de 2026
Se durante mais de
sete décadas a ferrovia
simbolizou progresso,
desenvolvimento e
esperança para
Jaboticabal, a partir da
década de 1950 os
primeiros sinais de
decadência
começaram a surgir. O
Brasil mudava sua
política de transportes,
e as locomotivas que durante décadas haviam impulsionado a
economia nacional passaram, gradativamente, a perder espaço
para caminhões e ônibus.
A mudança não aconteceu de um dia para o outro. Durante
muitos anos, ferroviários, comerciantes, produtores rurais e
moradores perceberam uma redução lenta no movimento da
estação. Alguns trens deixaram de circular diariamente,
determinados serviços foram reduzidos e os investimentos na
manutenção da via permanente diminuíram.
Um dos fatores mais
importantes ocorreu
ainda nas primeiras
décadas do século XX.
Quando a Companhia
Paulista decidiu
construir um novo
tronco ferroviário em
bitola larga, ligando
Rincão a Bebedouro
pela margem direita do
rio Mogi-Guaçu,
Jaboticabal deixou de
integrar a principal rota da companhia. A cidade passou a ser
atendida por um ramal secundário, situação que, ao longo dos
anos, reduziu sua importância estratégica dentro da malha
ferroviária paulista.
Nas décadas seguintes, a política nacional privilegiou o
transporte rodoviário. O governo federal ampliou investimentos
em estradas, estimulou a indústria automobilística e direcionou
recursos para a construção de rodovias. Caminhões passaram
a disputar o transporte das cargas agrícolas e ônibus
assumiram grande parte do transporte de passageiros.
Oficialmente, argumentava-se que diversos ramais ferroviários
apresentavam baixa rentabilidade, elevados custos de
manutenção, necessidade de modernização e redução do
volume transportado. Para os administradores da época,
concentrar investimentos nas rodovias parecia representar uma
solução mais econômica.
Entretanto, muitos historiadores e especialistas consideram que
a análise foi incompleta. Diversos trechos ferroviários
apresentavam potencial para modernização, mas acabaram
sendo abandonados em vez de recuperados. Enquanto vários
países ampliavam e eletrificavam suas ferrovias, o Brasil
iniciava um longo processo de desativação de linhas
consideradas secundárias.
Jaboticabal tornou-se uma das cidades afetadas por essa
política.
Em 23 de dezembro de 1966 foi encerrada a circulação
ferroviária entre Jaboticabal e Bebedouro. Restava apenas o
trecho entre Jaboticabal e Rincão. Durante pouco mais de dois
anos, a população ainda manteve a esperança de que o
restante da linha pudesse ser preservado.
Essa esperança terminou definitivamente na noite de 2 de
janeiro de 1969.
A data ficou gravada para sempre na memória dos ferroviários e
dos moradores da cidade. Muitos ainda se referem a ela
simplesmente como "O Dia da Tristeza".
Naquela noite, centenas de pessoas reuniram-se na estação
ferroviária para acompanhar a partida da última composição da
Companhia Paulista. Não era um embarque comum. Todos
sabiam que aquele trem encerraria uma das mais importantes
fases da história de Jaboticabal.
Pouco antes das 19h30, ferroviários
cumpriram suas últimas funções.
Bilheteiros, agentes, maquinistas,
guardas-freios, operadores e demais
funcionários realizavam procedimentos
que haviam repetido milhares de vezes
ao longo da carreira, mas que agora
possuíam um significado completamente
diferente.
Às 19h28, o último trem deixou a
estação de Jaboticabal com destino a
Rincão.
Conta-se que muitas pessoas
permaneceram na plataforma
observando a locomotiva desaparecer
lentamente no horizonte. Alguns
ferroviários não conseguiram esconder a
emoção. Para inúmeras famílias, aquele não representava
apenas o fim de um emprego, mas o encerramento de uma
história construída por gerações.
Quando a composição chegou a Rincão, iniciava-se
imediatamente outra etapa igualmente simbólica: a retirada dos
trilhos. Operários começaram a desmontar a linha ainda
naquela noite, tornando praticamente impossível qualquer
esperança de retorno do serviço ferroviário.
A retirada da ferrovia trouxe consequências profundas para
Jaboticabal.
Diversas atividades
econômicas ligadas
direta ou indiretamente
aos trens
desapareceram.
Comerciantes
perderam parte
importante de seus
clientes. Pequenos prestadores de serviço deixaram de atender
viajantes. Hotéis e pensões reduziram significativamente o
movimento. Armazéns modificaram suas atividades. Empresas
passaram a depender exclusivamente das rodovias para
transportar mercadorias.
Também desapareceram inúmeras profissões tradicionais da
ferrovia. Maquinistas, foguistas, chefes de estação, agentes,
trabalhadores da manutenção permanente, operadores de
telégrafo e muitos outros profissionais tiveram suas carreiras
interrompidas ou precisaram buscar novas ocupações.
Do ponto de vista urbano, Jaboticabal perdeu um dos principais
símbolos de sua identidade. Durante décadas, a estação
ferroviária havia funcionado como verdadeiro cartão de visitas
da cidade. Era por ela que chegavam visitantes, autoridades,
comerciantes, artistas e famílias inteiras em busca de novas
oportunidades.
Mesmo diante dessas perdas, a memória ferroviária jamais
desapareceu completamente.
O antigo prédio da estação permanece como testemunha
silenciosa de um período em que os trilhos representavam
desenvolvimento, integração regional e prosperidade
econômica. Fotografias, documentos, relatos de antigos
ferroviários e lembranças preservadas pelas famílias continuam
mantendo viva uma das páginas mais importantes da história
jaboticabalense.
Mais do que recordar locomotivas e vagões, preservar essa
memória significa compreender como a ferrovia influenciou a
formação econômica, social e cultural de Jaboticabal. Boa parte
da cidade que conhecemos hoje nasceu direta ou indiretamente
graças aos trilhos da Companhia Paulista.
Muitos pesquisadores defendem que o Brasil poderia ter
seguido um caminho diferente, mantendo uma matriz de
transportes mais equilibrada entre ferrovias e rodovias. Essa
discussão permanece atual, especialmente diante do elevado
custo logístico nacional e da crescente valorização do
transporte ferroviário em diversos países.
Em Jaboticabal, a história da ferrovia continua despertando
interesse de pesquisadores, descendentes de ferroviários e
cidadãos que reconhecem a importância desse patrimônio.
Resgatar essa trajetória significa também prestar homenagem
às milhares de pessoas que dedicaram suas vidas ao
funcionamento dos trens.
Esta reportagem não encerra essa história.
Na próxima etapa desta série especial, o Jornal Crônica e Arte
apresentará um estudo detalhado de todo o antigo percurso
ferroviário regional, desde Rincão, passando por Guariba,
Estação Hammond (Fazenda Barreiro), Córrego Rico,
Jaboticabal, Lusitânia e Bebedouro. A série trará mapas
históricos, documentos, curiosidades, fotografias raras, histórias
das estações, biografias de ferroviários e a influência da
ferrovia na formação dos municípios da região.
Porque, embora os trilhos tenham desaparecido da paisagem,
sua história permanece viva na memória de Jaboticabal.
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PROXIMAMENTE MAIS ESTUDOS E ARTIGOS SOBRE AS
FERROVIAS NA REGIAO DE JABOTICABAL
LA STORIA
Mentore Conti é Professor de História e
advogado também
(continue lendo após o anúncio)
Estação de
Hammond
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