CRONICA E ARTE CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email cronicaearte@cronicaearte.com.br Rua São João, 869, 14882-010 Jaboticabal SP
A FERROVIA QUE TRANSFORMOU JABOTICABAL: O "DIA DA TRISTEZA", O FIM DOS TRILHOS E O LEGADO QUE PERMANECE (PARTE 2) Mentore Conti – MTB 0080415/SP Fotos: Acervo histórico, Companhia Paulista de Estradas de Ferro, Estações Ferroviárias e coleções particulares. Jaboticabal, 7 de julho de 2026 Se durante mais de sete décadas a ferrovia simbolizou progresso, desenvolvimento e esperança para Jaboticabal, a partir da década de 1950 os primeiros sinais de decadência começaram a surgir. O Brasil mudava sua política de transportes, e as locomotivas que durante décadas haviam impulsionado a economia nacional passaram, gradativamente, a perder espaço para caminhões e ônibus. A mudança não aconteceu de um dia para o outro. Durante muitos anos, ferroviários, comerciantes, produtores rurais e moradores perceberam uma redução lenta no movimento da estação. Alguns trens deixaram de circular diariamente, determinados serviços foram reduzidos e os investimentos na manutenção da via permanente diminuíram. Um dos fatores mais importantes ocorreu ainda nas primeiras décadas do século XX. Quando a Companhia Paulista decidiu construir um novo tronco ferroviário em bitola larga, ligando Rincão a Bebedouro pela margem direita do rio Mogi-Guaçu, Jaboticabal deixou de integrar a principal rota da companhia. A cidade passou a ser atendida por um ramal secundário, situação que, ao longo dos anos, reduziu sua importância estratégica dentro da malha ferroviária paulista. Nas décadas seguintes, a política nacional privilegiou o transporte rodoviário. O governo federal ampliou investimentos em estradas, estimulou a indústria automobilística e direcionou recursos para a construção de rodovias. Caminhões passaram a disputar o transporte das cargas agrícolas e ônibus assumiram grande parte do transporte de passageiros. Oficialmente, argumentava-se que diversos ramais ferroviários apresentavam baixa rentabilidade, elevados custos de manutenção, necessidade de modernização e redução do volume transportado. Para os administradores da época, concentrar investimentos nas rodovias parecia representar uma solução mais econômica. Entretanto, muitos historiadores e especialistas consideram que a análise foi incompleta. Diversos trechos ferroviários apresentavam potencial para modernização, mas acabaram sendo abandonados em vez de recuperados. Enquanto vários países ampliavam e eletrificavam suas ferrovias, o Brasil iniciava um longo processo de desativação de linhas consideradas secundárias. Jaboticabal tornou-se uma das cidades afetadas por essa política. Em 23 de dezembro de 1966 foi encerrada a circulação ferroviária entre Jaboticabal e Bebedouro. Restava apenas o trecho entre Jaboticabal e Rincão. Durante pouco mais de dois anos, a população ainda manteve a esperança de que o restante da linha pudesse ser preservado. Essa esperança terminou definitivamente na noite de 2 de janeiro de 1969. A data ficou gravada para sempre na memória dos ferroviários e dos moradores da cidade. Muitos ainda se referem a ela simplesmente como "O Dia da Tristeza". Naquela noite, centenas de pessoas reuniram-se na estação ferroviária para acompanhar a partida da última composição da Companhia Paulista. Não era um embarque comum. Todos sabiam que aquele trem encerraria uma das mais importantes fases da história de Jaboticabal. Pouco antes das 19h30, ferroviários cumpriram suas últimas funções. Bilheteiros, agentes, maquinistas, guardas-freios, operadores e demais funcionários realizavam procedimentos que haviam repetido milhares de vezes ao longo da carreira, mas que agora possuíam um significado completamente diferente. Às 19h28, o último trem deixou a estação de Jaboticabal com destino a Rincão. Conta-se que muitas pessoas permaneceram na plataforma observando a locomotiva desaparecer lentamente no horizonte. Alguns ferroviários não conseguiram esconder a emoção. Para inúmeras famílias, aquele não representava apenas o fim de um emprego, mas o encerramento de uma história construída por gerações. Quando a composição chegou a Rincão, iniciava-se imediatamente outra etapa igualmente simbólica: a retirada dos trilhos. Operários começaram a desmontar a linha ainda naquela noite, tornando praticamente impossível qualquer esperança de retorno do serviço ferroviário. A retirada da ferrovia trouxe consequências profundas para Jaboticabal. Diversas atividades econômicas ligadas direta ou indiretamente aos trens desapareceram. Comerciantes perderam parte importante de seus clientes. Pequenos prestadores de serviço deixaram de atender viajantes. Hotéis e pensões reduziram significativamente o movimento. Armazéns modificaram suas atividades. Empresas passaram a depender exclusivamente das rodovias para transportar mercadorias. Também desapareceram inúmeras profissões tradicionais da ferrovia. Maquinistas, foguistas, chefes de estação, agentes, trabalhadores da manutenção permanente, operadores de telégrafo e muitos outros profissionais tiveram suas carreiras interrompidas ou precisaram buscar novas ocupações. Do ponto de vista urbano, Jaboticabal perdeu um dos principais símbolos de sua identidade. Durante décadas, a estação ferroviária havia funcionado como verdadeiro cartão de visitas da cidade. Era por ela que chegavam visitantes, autoridades, comerciantes, artistas e famílias inteiras em busca de novas oportunidades. Mesmo diante dessas perdas, a memória ferroviária jamais desapareceu completamente. O antigo prédio da estação permanece como testemunha silenciosa de um período em que os trilhos representavam desenvolvimento, integração regional e prosperidade econômica. Fotografias, documentos, relatos de antigos ferroviários e lembranças preservadas pelas famílias continuam mantendo viva uma das páginas mais importantes da história jaboticabalense. Mais do que recordar locomotivas e vagões, preservar essa memória significa compreender como a ferrovia influenciou a formação econômica, social e cultural de Jaboticabal. Boa parte da cidade que conhecemos hoje nasceu direta ou indiretamente graças aos trilhos da Companhia Paulista. Muitos pesquisadores defendem que o Brasil poderia ter seguido um caminho diferente, mantendo uma matriz de transportes mais equilibrada entre ferrovias e rodovias. Essa discussão permanece atual, especialmente diante do elevado custo logístico nacional e da crescente valorização do transporte ferroviário em diversos países. Em Jaboticabal, a história da ferrovia continua despertando interesse de pesquisadores, descendentes de ferroviários e cidadãos que reconhecem a importância desse patrimônio. Resgatar essa trajetória significa também prestar homenagem às milhares de pessoas que dedicaram suas vidas ao funcionamento dos trens. Esta reportagem não encerra essa história. Na próxima etapa desta série especial, o Jornal Crônica e Arte apresentará um estudo detalhado de todo o antigo percurso ferroviário regional, desde Rincão, passando por Guariba, Estação Hammond (Fazenda Barreiro), Córrego Rico, Jaboticabal, Lusitânia e Bebedouro. A série trará mapas históricos, documentos, curiosidades, fotografias raras, histórias das estações, biografias de ferroviários e a influência da ferrovia na formação dos municípios da região. Porque, embora os trilhos tenham desaparecido da paisagem, sua história permanece viva na memória de Jaboticabal. ´ PROXIMAMENTE MAIS ESTUDOS E ARTIGOS SOBRE AS FERROVIAS NA REGIAO DE JABOTICABAL
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Mentore Conti é Professor de História e advogado também
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