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QUANDO A JUSTIÇA ERRA E A HISTÓRIA
COBRA O PREÇO
O forte exemplo do episódio da Coluna infame em
Milão de 1630
Mentore Conti Mtb 0080415 SP fotos Domínio
Público e Agencia Brasil
Jaboticabal, 7 de março de 2026
A justiça brasileira é
notoriamente lenta,
com processos que
se arrastam por
anos ou décadas,
sobrecarregados por
um volume
excessivo de
demandas e uma
estrutura judiciária inchada. Essa demora não é
mero acidente: ela reflete falhas sistêmicas, como
a falta de investimento em tecnologia e pessoal
qualificado. Para o cidadão comum, isso significa
angústia prolongada e soluções tardias,
transformando o Judiciário em um labirinto
burocrático onde o tempo vira inimigo.
Pior que a lentidão, porém, é a tendência de juízes
e tribunais a se curvarem ao clamor público ou a
uma suposta "justiça social", priorizando narrativas
midiáticas ou agendas ideológicas em detrimento
do direito positivo. Decisões ativistas, que
reinterpretam leis para atender demandas
populares ou corrigir desigualdades sociais
percebidas, acabam violando princípios basilares
como a imparcialidade e a legalidade estrita.
Assim, réus ou partes são condenados não pelo
mérito das provas, mas pelo eco das ruas ou por
políticas corretivas, o que erode a confiança no
sistema.
Esse desvio gera um mal-estar profundo para
quem busca a justiça — sentimento de injustiça
pessoal e impotência — e uma insegurança
jurídica generalizada, onde ninguém sabe se uma
lei será aplicada como está escrita ou moldada
pelo momento político. Empresas hesitam em
investir, contratos perdem valor e o Estado de
Direito fraqueja. Um exemplo histórico
paradigmático dessa "justiça pelo clamor" é a
Coluna Infame, de Alessandro Manzoni, que
ilustra como o tribunal da opinião pública pode
suplantar o direito e condenar inocentes.
A obra Storia della Colonna Infame, escrita por
Alessandro Manzoni, relata um dos casos judiciais
mais controversos da história europeia.
Ambientada na peste que devastou Milão em
1630, a narrativa reconstrói o julgamento e a
condenação de dois homens acusados de
espalhar deliberadamente a doença. Séculos
depois, o episódio é lembrado como um grave erro
judicial, marcado por tortura, medo coletivo e
abuso de poder.
Mais do que um relato histórico, o texto de
Manzoni se tornou uma reflexão profunda sobre
os riscos de decisões judiciais tomadas sob
pressão social e política, transformando-se em um
alerta permanente para magistrados e instituições
de justiça.
A história da
justiça humana é
também a história
de seus erros.
Entre os casos
mais
emblemáticos
dessa falibilidade está aquele narrado por Storia
della Colonna Infame, obra escrita no século XIX
por Alessandro Manzoni, (neto de Cesare
Beccaria) um dos maiores nomes da literatura
italiana e autor do clássico I Promessi Sposi.
Manzoni não escreveu apenas uma narrativa
histórica. Seu texto funciona como uma
investigação moral e jurídica sobre um episódio
ocorrido em Milão durante a devastadora epidemia
de peste de 1630. Naquele momento, a cidade
vivia sob pânico absoluto. Milhares morriam, o
conhecimento médico era limitado e a população
buscava desesperadamente culpados para
explicar a tragédia.
Foi nesse ambiente de medo que surgiram as
acusações contra dois homens — um barbeiro
chamado Gian Giacomo Mora e um funcionário
público chamado Guglielmo Piazza. Eles foram
acusados de espalhar deliberadamente
substâncias nas paredes e portas da cidade para
disseminar a peste, uma suposta conspiração
conhecida na época como obra dos “untori”, ou
seja, aqueles que ungiam superfícies com veneno
ou contágio.
A acusação rapidamente se transformou em
certeza popular. O medo coletivo pressionava por
respostas, e as autoridades sentiram-se
compelidas a demonstrar ação. O resultado foi um
processo judicial marcado por irregularidades,
torturas e confissões obtidas sob sofrimento
extremo.
Os acusados
acabaram
condenados de
forma brutal.
Após a
execução, a
casa de Mora foi
destruída e no
local ergueu-se
um monumento
simbólico: a chamada “coluna da infâmia”,
destinada a lembrar eternamente o suposto crime.
Mas a história não terminou ali.
Séculos depois, historiadores e juristas
começaram a reexaminar os documentos do
processo. As evidências demonstravam que não
havia prova real do crime. As acusações
nasceram da superstição, da pressão social e da
incapacidade das autoridades de lidar
racionalmente com a crise sanitária.
Foi então que Alessandro Manzoni, com rigor
quase de investigador histórico, revisitou os autos
do processo e demonstrou como o sistema judicial
havia falhado gravemente. Sua análise revelou
algo inquietante: os juízes não eram
necessariamente homens cruéis ou ignorantes,
mas estavam presos a um contexto de medo
coletivo e expectativas políticas.
Manzoni mostrou
que a injustiça não
nasce apenas da
maldade individual.
Muitas vezes ela
surge da
combinação
perigosa entre
pânico social,
convicções erradas
e instituições que deixam de agir com prudência.
O episódio tornou-se, assim, um dos exemplos
mais claros de erro judicial produzido por histeria
coletiva.
A lição que emerge desse caso continua
extremamente atual. O Poder Judiciário, em
qualquer país, exerce uma função delicada:
decidir sobre a liberdade, a honra e muitas vezes
a vida das pessoas. Por isso, precisa agir com
cautela, independência e respeito absoluto às
garantias processuais.
Quando decisões são tomadas para atender à
pressão da opinião pública, para satisfazer climas
políticos ou para responder rapidamente a crises
sociais, o risco de injustiça aumenta
dramaticamente.
Sobre o clamor público que disse no inicio o
mundo contemporâneo, e no caso especifico do
Brasil, essa pressão tornou-se ainda mais intensa
por causa das redes sociais. Plataformas como
Facebook, X e Instagram amplificam julgamentos
instantâneos e muitas vezes emocionais, criando
verdadeiros “tribunais virtuais”. Nesses ambientes
digitais, acusações podem se espalhar
rapidamente, formando narrativas que pressionam
autoridades a agir antes que todos os fatos
estejam devidamente apurados.
Esse fenômeno moderno reproduz, em escala
global e velocidade inédita, o mesmo tipo de
pressão social que, séculos atrás, contribuiu para
erros judiciais como o ocorrido em Milão.
A história da Coluna da Infâmia mostra que
tribunais podem errar quando abandonam o
princípio fundamental da dúvida e da prova.
Mostra também que a tortura, o preconceito e a
necessidade de encontrar culpados podem
transformar suspeitas frágeis em condenações
irreversíveis.
Por isso, o caso
narrado por
Manzoni
permanece um
alerta permanente
para magistrados,
promotores e
juristas: a justiça
não pode ser conduzida pelo medo, pela pressa
ou pela opinião das multidões.
A verdadeira função do Judiciário não é oferecer
respostas rápidas, mas decisões justas.
No local onde antes existia o monumento da
infâmia em Milão, hoje resta apenas a memória
histórica. A coluna foi removida porque o próprio
Estado reconheceu que aquele símbolo celebrava
uma injustiça. Paradoxalmente, porém, o episódio
continua erguido na consciência jurídica da
humanidade.
Não mais como acusação contra dois homens
inocentes, mas como um monumento permanente
contra os erros da justiça.
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