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O IMPÉRIO DA MÁFIA O SINDICATO DO CRIME À
GUERRA FRIA E O PACTO COM OS EUA
Mentore Conti Mtb 0080415 SP foto Pres Roosvelt e ao
lado Lucky Luciano dominio público Divulgação
Jaboticabal, 7 de fevereiro de 2026
Notícia introdutória
Atualmente, fala-se
muito sobre a máfia e
as organizações
criminosas que se
entrelaçam com o
Estado, levando,
muitas vezes, a uma
impotência estatal
diante do poder
dessas organizações,
como a Cosa Nostra,
a Camorra, a
’Ndrangheta, entre
outras que poderíamos enumerar.
Mas será que um Estado —como a Itália e os Estados
Unidos — nunca recorreu a meios antiéticos para
defender seu território? Afinal, até que ponto, esse poder
criminoso atual, não tem raízes em acordos feitos
anteriormente por diversos governos com indivíduos
ligados a organizações criminosas, cujas posições
sociais, em determinados momentos, auxiliaram o Estado
na consolidação deste Estado?
Exemplos desse tipo de acordo ao longo da história não
faltam: podemos citar os piratas contratados pelos
Estados Unidos e pela Inglaterra, que, transformados em
corsários, auxiliaram o poder colonial britânico na América
e em outras partes do mundo. Mas isso fica para outra
ocasião, outro texto, outro artigo.
A história que vamos contar desta vez é a da Operação
Husky e sua ligação com a máfia italiana.
Charles “Lucky” Luciano, considerado o arquiteto da máfia
moderna nos Estados Unidos, foi mais do que um chefe
do crime: sua influência atravessou fronteiras e chegou
até os bastidores da Segunda Guerra Mundial.
Investigado pelo FBI e citado em relatórios da Comissão
Kefauver, Luciano redefiniu o poder da Cosa Nostra e
manteve vínculos com o governo norte-americano durante
a Operação Husky, em 1943, quando o exército dos EUA
invadiu a Sicília. Sua trajetória mistura crime, política e
espionagem — uma aliança improvável entre o submundo
e o Estado.
O estrategista do submundo
Salvatore Lucania nasceu em 1897, na Sicília, e imigrou
para Nova York ainda criança. Nos bairros italianos do
Lower East Side, aprendeu rapidamente que o poder
vinha da lealdade e da inteligência. A alcunha “Lucky”
(“sortudo”) veio após escapar de uma emboscada que
quase o matou em 1929. Durante os anos da Lei Seca,
Luciano ascendeu ao lado de figuras como Meyer Lansky
e Bugsy Siegel, transformando o contrabando de bebidas
em uma rede corporativa do crime.
Após os assassinatos de Joe Masseria e Salvatore
Maranzano, em 1931 — rivais nas chamadas Guerras
Castellammarese — Luciano reorganizou a estrutura da
máfia norte-americana, criando o que ficou conhecido
como A Comissão: um conselho formado por chefes das
principais famílias, com a função de resolver conflitos e
dividir territórios. Esse modelo, inspirado no sistema
empresarial americano, substituiu o domínio pessoal e
violento por uma lógica de gestão coletiva. Segundo o
FBI, foi a primeira vez que o crime organizado adotou
uma hierarquia nacional estável¹.
O Sindicato do Crime e o poder oculto
De acordo com o historiador Tim Newark, autor de Mafia
Allies (2007), Luciano foi o primeiro a compreender que o
crime poderia funcionar como um “negócio paralelo”
dentro da economia legal. Criou o chamado Sindicato
Nacional do Crime, uma aliança que controlava não só o
jogo e a prostituição, mas também sindicatos portuários,
transportes, e construção civil em cidades como Nova
York, Chicago e Nova Orleans. Essa rede permitiu
infiltrar-se em contratos públicos e dominar setores
inteiros da economia durante a Grande Depressão.
Ao mesmo tempo, Luciano mantinha boas relações com
políticos e policiais corruptos, o que garantiu impunidade
por anos. Sua prisão só aconteceu em 1936, após uma
longa investigação do promotor Thomas Dewey, que o
acusou de chefiar um sistema de exploração sexual
envolvendo mais de duzentas mulheres. Condenado a 30
a 50 anos, Luciano foi enviado à prisão de Dannemora,
no norte do estado de Nova York, onde parecia destinado
a desaparecer.
O pacto com o governo e a Operação Husky
O rumo da guerra, porém, mudaria sua história. Em 1942,
com o avanço nazista na Europa, o governo americano
temia sabotagens nos portos de Nova York e Nova
Jersey. Navios haviam sido incendiados e havia rumores
de infiltração fascista. Segundo arquivos liberados em
1954 pelo Departamento de Marinha dos EUA², a
inteligência naval iniciou contatos secretos com o
submundo para proteger as docas — operação batizada
de Underworld Cooperation.
Os intermediários eram mafiosos ligados a Luciano, que,
mesmo preso, mantinha autoridade sobre os sindicatos
portuários. Em troca de colaboração, o governo ofereceu
benefícios e, mais tarde, a possibilidade de comutação de
pena.
Essa aliança evoluiu para algo maior durante a Operação
Husky, a invasão aliada da Sicília em julho de 1943. De
acordo com o pesquisador Rodney Campbell, em The
Luciano Project (1977), os militares utilizaram contatos
mafiosos sicilianos para obter informações sobre
estradas, esconderijos fascistas e geografia local. O nome
de Don Calogero Vizzini, influente chefe siciliano, aparece
em relatórios aliados como colaborador civil³.
Embora não existam provas de que Luciano tenha
comandado diretamente a operação, o FBI e o Naval
Intelligence Office reconheceram seu “apoio indireto”. Em
1946, como forma de gratidão, ele teve sua pena reduzida
por boa conduta e “serviços prestados ao país” — e foi
deportado para a Itália.
O retorno às sombras
De volta à Europa, Luciano tentou reconstruir seu império
a partir de Nápoles. No pós-guerra, o tráfico internacional
de heroína substituiu o contrabando de bebidas como
principal fonte de renda do crime. Em 1946, ele organizou
a Conferência de Havana, em Cuba, reunindo chefes
como Meyer Lansky e Vito Genovese para reestruturar as
rotas de narcóticos. O encontro também marcou a
entrada da máfia norte-americana no lucrativo setor de
cassinos caribenhos.
O FBI, em relatórios entre 1947 e 1951, monitorou suas
comunicações e alertou para uma “nova internacional
criminosa”⁴. Pressionado pelos governos de Cuba e dos
Estados Unidos, Luciano foi expulso novamente e fixou
residência definitiva em Nápoles. Mesmo afastado do
comando direto, manteve contatos com organizações
italianas e francesas envolvidas no tráfico de ópio do
Oriente Médio — base da futura French Connection.
O último ato
Luciano morreu em 1962,
no aeroporto de Nápoles,
logo após um encontro
com o produtor Martin
Gosch, que planejava
filmar sua biografia.
Ironicamente, o homem
que havia moldado a
máfia moderna morreu
tentando contar sua
própria versão dos fatos.
Sua vida, dividida entre a
astúcia e a ambição,
espelha o século XX: um
período em que o crime
organizado tornou-se
uma engrenagem do
poder global. Luciano não foi apenas um gângster; foi o
primeiro executivo do crime — e talvez o mais influente de
todos.
Quarta-feira a noite um artigo comentando os porques
históticos desta aliança, não perca!!!!!
¹ Fontes: Arquivos do FBI (1931–1946); Comissão
Kefauver, Relatório sobre o Crime Organizado nos EUA
(1950).
² Departamento de Marinha dos EUA, arquivos liberados
em 1954, série “Operation Underworld Files”.
³ Campbell, Rodney. The Luciano Project (1977); Newark,
Tim. Mafia Allies (2007).
⁴ FBI, Office of Narcotics, relatórios internos (1947–1951);
entrevista de Meyer Lansky a Robert Lacey, 1976.
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