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CASO USTICA: O CÉU E A VIDA HUMANA ABATIDOS
PELA RAZÃO DE ESTADO
Enquanto no Brasil a esquerda e a direita vira fetiche e
idolatria de grupos políticos, ilha siciliana revela o pior das
ideologias
Mentore Conti Mtb 0080415 SP foto Divulgação
Jaboticabal, 3 de fevereiro de 2026
O desastre do
voo Itavia 870,
ocorrido em 27
de junho de 1980,
nas proximidades
da ilha de Ustica,
Sicília Itália,
segue como uma
das maiores
feridas abertas da
história italiana.
Quarenta anos
depois, novas revelações sobre a presença de um porta-
aviões norte-americano no Mediterrâneo, somadas ao
silêncio persistente da França e ao contexto geopolítico
envolvendo o regime líbio de Muammar Kadafi, reforçam
a tese de que o avião civil foi derrubado durante uma
operação militar secreta. O episódio expõe como
interesses estratégicos e ideológicos se sobrepuseram à
vida de 81 cidadãos.
Ustica: quando o céu virou campo de batalha
Na noite de 27 de junho de 1980, o DC-9 da companhia
Itavia, que fazia a rota Bolonha–Palermo, desapareceu
dos radares e caiu no Mar Tirreno, próximo à ilha de
Ustica. Não houve pedido de socorro. Não houve tempo
para reação. Houve apenas a interrupção abrupta de 81
vidas.
Desde o início, o caso foi tratado como um incômodo
político. A versão oficial apontou falha técnica e
problemas de manutenção, jogando a responsabilidade
sobre a companhia aérea, que acabaria falindo pouco
depois. Mas os dados não fechavam. A dinâmica da
queda, os destroços e os registros de radar indicavam
algo mais violento e externo.
O míssil e a guerra que “não existia”
Com o avanço das investigações judiciais e técnicas,
consolidou-se a hipótese de que o avião civil foi atingido
por um míssil durante uma operação militar aérea não
declarada. O Mediterrâneo, naquela noite, estava longe
de ser um espaço neutro. Havia intensa movimentação
de aeronaves militares, incompatível com exercícios
rotineiros.
O DC-9 não era o alvo. Tornou-se vítima colateral de um
confronto invisível, típico da lógica da Guerra Fria, em
que ações armadas eram executadas sem
reconhecimento oficial.
O porta-aviões americano e o silêncio estratégico
Entre os elementos mais perturbadores revelados ao
longo dos anos está a presença de um porta-aviões dos
Estados Unidos no Mediterrâneo, operando aeronaves na
mesma faixa de tempo e espaço do voo Itavia 870.
Washington jamais admitiu envolvimento direto, mas
também nunca abriu integralmente seus arquivos
militares sobre aquela noite.
A cooperação foi
parcial, seletiva e
tardia.
Documentos
permaneceram
classificados por
décadas. Para
investigadores
italianos, essa
postura não
dissipou dúvidas
— apenas
reforçou a percepção de que a verdade foi sacrificada em
nome da estabilidade geopolítica.
A França e um silêncio que atravessa décadas
Se o silêncio norte-americano foi diplomático, o francês
foi operacional. Há indícios consistentes de que caças
franceses decolaram de bases na Córsega naquela noite.
Ainda assim, a França jamais forneceu registros
completos de radar ou comunicações militares.
Esse silêncio persistente transformou-se em um dos
pontos mais sensíveis do Caso Ustica. Mesmo após
decisões judiciais italianas reconhecerem oficialmente a
existência de obstrução e desinformação, Paris manteve
uma postura evasiva. O que deveria ser cooperação entre
aliados tornou-se um muro.
Kadafi: o alvo invisível
No centro do tabuleiro estava Muammar Kadafi, então
líder da Líbia. Segundo diversas reconstruções, o
verdadeiro objetivo da operação aérea seria interceptar
uma aeronave líbia ligada ao regime, possivelmente
transportando o próprio Kadafi ou alguém de seu círculo
mais próximo.
Relatos indicam
que ele teria sido
alertado a tempo
e alterado sua
rota. Se
confirmado,
Ustica deixa de
ser apenas um
“acidente” ou
“erro militar” e
passa a
configurar um
atentado político internacional frustrado, cujo fracasso
custou 81 vidas italianas.
Enquanto no Brasil a esquerda e a direita brigam, Ustica
revela o pior das ideologias
Enquanto no Brasil a política muitas vezes se reduz a
uma disputa estética entre esquerda e direita — tratada
como espetáculo, torcida ou identidade —, o Caso Ustica
impõe uma reflexão mais dura e menos confortável. Ele
mostra que a monstruosidade não pertence a uma
ideologia específica, mas ao momento em que qualquer
uma delas decide que a vida humana pode ser
sacrificada.
De um lado, Kadafi, símbolo do anti-imperialismo e de
uma esquerda autoritária, envolvido em jogos de poder
que ignoravam completamente a segurança de civis. Do
outro, os Estados Unidos e aliados ocidentais, defensores
autodeclarados da democracia liberal, dispostos a ocultar
fatos, silenciar parceiros e relativizar a morte de cidadãos
para preservar alianças militares.
Ustica desmonta a falsa ideia de que a barbárie está
sempre “do outro lado”. Quando a razão de Estado
prevalece, esquerda e direita se encontram no mesmo
ponto: o da desumanização. As bandeiras mudam, o
discurso se adapta, mas o mecanismo permanece
idêntico.
Despistagem como política pública
Após a queda do
avião, o que se
seguiu foi uma
operação
sistemática de
confusão:
radares que “não
funcionavam”
apenas naquela
noite;
documentos
desaparecidos;
oficiais militares
que mentiram sob juramento;
testemunhas-chave mortas em circunstâncias nunca
plenamente esclarecidas.
A Justiça italiana reconheceu formalmente que houve
ocultação deliberada da verdade por parte de setores do
Estado. Não para proteger cidadãos, mas para evitar um
escândalo internacional envolvendo aliados estratégicos.
A vida abaixo da aliança
O Caso Ustica cristaliza uma hierarquia brutal: primeiro
vêm as alianças, depois os interesses militares, e só
então — se sobrar espaço — a vida humana.
O Estado italiano foi condenado a indenizar as famílias,
mas jamais conseguiu oferecer o essencial: a verdade
completa. Nenhum responsável direto foi julgado
criminalmente. Nenhum país aliado pediu desculpas.
Nenhuma explicação definitiva foi apresentada.
Ustica continua
Mais de quatro
décadas depois,
Ustica não
pertence ao
passado. Ele
permanece como
alerta
permanente de
que democracias
também matam
quando decidem
não ver, e de que
ideologias,
quando
blindadas pelo poder, produzem as mesmas sombras.
Enquanto documentos permanecerem lacrados e
silêncios diplomáticos forem tratados como estratégia
legítima, o Caso Ustica continuará sendo menos um
acidente e mais um crime sem autores reconhecidos —
um lembrete incômodo de que, quando o céu vira campo
de batalha, os cidadãos são sempre os primeiros a cair.
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